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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

AS FAZENDAS

As ricas fazendas deixadas por Domingos Afonso Mafrense, incorporadas à Coroa portuguesa e depois de roubalheira permanente. Nelas diminuía a renda anual e desaparecia o gado, o que levou o Congresso Nacional a votar leis autorizando a venda ou arrendamento de várias dessas propriedades.

O dr. Francisco Parentes, engenheiro-agrônomo, teve a idéia de trabalhar pela instalação de um estabelecimento zootecnia e agrícola, à margem do rio Parnaíba. Em setembro de 1873 foi o autorizado a criá-lo. Francisco Parentes seguiu para a fazenda Bom Jardim, em Amarante. Aí foi fundado o Estabelecimento Rural São Pedro de Alcântara. Bom Jardim foi um dos sítios de constituição do atual município de Floriano. O edifício dessa instituição apresentava todas as vantagens como escola de ensino prático. O prédio, porém, em 1922, já estava arruinado.

Em 1889, 17 fazendas, dos departamentos de Canindé e Nazaré, subdivididas em 24, foram entregues, sob contrato, a Antônio José de Sampaio: o rico e vasto território, que contém cerca de 18.000 cabeças de gado vacum, 700 cavalares, habitações e o grande estabelecimento rural, além de  importante fábrica de manteiga e queijo, movida a vapor, com o mais perfeito aparelhamento e maquinaria. Nada disto mais existe.

Outras fazendas dos departamentos de Nazaré e Piauí foram arrendadas a Políbio Rodrigues Fernandes, em 1878.

Todas as propriedades de Mafrense volveram ao patrimônio nacional. Tinham o nome de FAZENDAS NACIONAIS. A constituição brasileira de 1946, por iniciativa do deputado piauiense Adelmar Soares da Rocha, determinou que as fazendas passassem ao patrimônio do Estado do Piauí, situação em que elas se encontram, com o nome de FAZENDAS ESTADUAIS.

O gado das fazendas veio das fazendas das margens do São Francisco, trazido por Mafrense. De início, a importação foi feita da ilha do Cabo Verde (Portugal). Esses animais multiplicaram-se extraordinariamente no Piauí.

Em documento de 21/06/1974, o governador Alberto Tavares Silva submeteu ao Senado Federal pedido de autorização para alienar áreas de terras públicas do Piauí à Companhia de Desenvolvimento do Piauí, Sociedade de Economia Mista, que tem o objetivo de fomentar e explorar atividades agropastoris, industriais, mineração e colonização. Nessas áreas está a das FAZENDAS ESTADUAIS, que ocupa os municípios de Oeiras, Floriano, Itaueira, Simplício Mendes, Itainópolis, abrangendo os municípios de Francisco Aires, Arraial, Nazaré, são Francisco do Piauí, Santo Inácio do Piuaí, Campinas do Piauí e Isaías Coelho. Objetivos do governo:

a) execução de projetos de colonização para aproveitamento da mão-de-obra excedente em outras áreas;

b) regularização da situação dos posseiros nos terrenos ocupados e localizados nas áreas referidas, permitindo-se a sua aquisição pelos ocupantes;

e c) alienação a empresas rurais, em lotes não superiores a 25.000ha para implantação de projetos agropecuários e agro-industriais, considerados de interesse para o desenvolvimento do Estado pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) e pela própria Companhia de Desenvolvimento do Piauí.

O professor Odilon Nunes, em pronunciamento na Universidade Federal do Piauí, manifestou-se contra a alienação.


A. Tito Filho, 30/09/1989, Jornal O Dia

CRENÇA

Nos Estados Unidos da América do Norte, vigorou durante largo tempo, a crença, a partir do século XIX, de que os presidentes da República, eleitos nos anos terminados em ZERO, de vinte em vinte anos, morreriam no poder. Como se originou o fato? Naturalmente da observação de indivíduos curiosos, que nasceram com a sina de anotar coincidências.

Vejamos. Em 1840, foi eleito para a presidência o cidadão chamado HARRISON. Andava adoentado. Assumiu o alto cargo e nele faleceu um mês depois. Em 1860, Lincoln ganhou a eleição. Quando começou um segundo período de governo assassinaram-no num teatro de Washington. Nas eleições de 1880, GARFIELD, vitorioso, assumiu a presidência e foi morto no exercício das funções. Três vezes deu-se a circunstância com relação aos eleitos: 1840, 1860 e 1880. Agora deveria haver morte presidencial com o que se elegesse no principio do novo século, 1900. Pois a história se repetiu. MACKINLEY ganhou o prélio eleitoral de 1896, dirigiu o país durante um quadriênio. Reelegeu-se em 1900, ocupou segunda vez a Casa Branca, mas bala assassina lhe tirou a vida. Em 1920, HARDING conquistou o governo. Morreu de morte morrida nos aposentos presidenciais. E Franklin Roosevelt quebraria o preconceito? Vitorioso em quatro eleições: 1932, 1936, 1940 e 1944. Notem o ano fatídico da crença popular: 1940. Roosevelt morreu no poder, em 1945. KENNEDY foi o vitorioso nas eleições de 1960. Morreu de morte matada, em Dallas. Observem: os presidentes, eleitos nos anos terminados em ZERO, de vinte em vinte anos, haveriam de despedir-se da vida no poder, como titulares do cargo presidencial: 1840, 1860, 1880, 1900, 1920, 1940 e 1960.

REAGAN, eleito a primeira vez em 1980, enganou a morte. Embora baleado e várias vezes operado, quebrou a corrente. Não deu certo. O homem deixou a Casa Branca em posição vertical, utilizando os próprios pés.


A. Tito Filho, 31/01/1989, Jornal O Dia

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

ETERNIDADE DA BÍBLIA

Jesus nada escreveu nem elaborou um sistema doutrinário, mas fundou uma religião que é uma filosofia. Foi o criador dos maiores idéias da humanidade. Pregou um código moral permanente, baseado no afeto, no amor e na igualdade: uma doutrina para o coração.
A Bíblia talvez seja o livro mais lido na face da terra, com profunda influência na evolução espiritual do mundo.

Os livros sapienciais chamados Jó, Provérbios, Eclesiastes apresentam uma idéia central que em toda a Bíblia aparece a cada instante. A idéia de que a sabedoria é um dom de Deus, soprada por ele na criatura humana. A sabedoria é a rainha de todas as virtudes.

Como conciliar a idéia de Deus coma injustiça do mundo, como conciliar o sofrimento dos justos com a fé na providência divina. A solução bíblica está na frase de Eliú: os sofrimentos dos justos constituem a purificação e a passagem para a glória maior. O sofrimento assume, pois um caráter de purificação e provocação. Em outras palavras: o homem deve aceitar, com fé, a sabedoria divina, sem tentar penetrar nos mistérios da providência. O homem deve conformar-se à sabedoria, isto é, à lei de Deus.

Na Bíblia, a sabedoria é uma virtude. É o temor de Deus a virtude que torna os homens sábios. Ser sábio é ser justo, é fazer bem ao próximo. não há sabedoria onde existe impiedade.

Para a Bíblia as cousas são frágeis. Vaidade das vaidades, tudo vaidade. Nada de novo sob o sol. Tudo é passageiro na vida: os prazeres, a riqueza, a beleza, a glória, pois tudo à vaidade e aflição espiritual.

Eterna sabedoria divina do amor.

Deus dá sabedoria aos homens, mas ninguém pode compreender os desígnios do alto.

A Bíblia é livro eterno como a sabedoria divina. Cada um de nós encontrará nas suas páginas a lição do amor e da virtude e mais do que tudo a fragilidade das cousas terrenas.


A. Tito Filho, 29/06/1989, Jornal O Dia

SITUAÇÃO NACIONAL

A nação brasileira parece que já aceita a rotina de aflições sem conta. Martiriza-se a fome de milhões, uma fome endêmica ou epidêmica, a doença concede às populações subnutridas vida curta e plena de sofrimentos, a habitação desumana constitui o cenário em que se abrigam as famílias de assalariados. A violência faz parte da convivência nas pequenas, nas médias como nas grandes cidades. Multiplicam-se os assaltos e os seqüestros. Mata-se por motivo ignóbil e até sem motivo algum. Vigora a lei da truculência. Diariamente os preços das utilidades disparam, sem que escapem os produtos oficiais vendidos pelo governo, como no caso dos combustíveis. Após a Constituição de 1988, tornou-se permanente a greve, sobretudo de professores de todos os graus, uma greve contra a educação e o saber e mais ainda contra os direitos sagrados de adolescentes e jovens, justificada porém pelos péssimos salários dos docentes que, mal pagos e endividados, perdem inteiramente o status social, que os fazia, nos dias passados merecedores do reconhecimento da coletividade. O ensino público nas áreas federal, estadual e municipal perdeu a credibilidade. Milhares de funcionários públicos da ativa não trabalham e comparecem nas repartições nos dias de pagamentos. São INVÁLIDOS por falta de ocupação e vivem pensionistas oficiais. Os famosos educandários particulares representam indústria de alta renda para os felizardos proprietários que ainda recebem ajuda governamental. Os poderes republicanos discutem, debatem e decidem sobre o salário mínimo das gentes nacionais, uma remuneração ínfima, raquítica, que mal cobre as despesas de alimentação, enquanto se pagam milhões mensais a um membro do legislativo. Perdeu-se a vergonha. Os mais tristes gestos contra a dignidade nada significam para os que transgridem as leis, pois a sociedade moderna considera heróis os que sabem enriquecer depressa, por conta de golpes de esperteza. Os bandidos ganham o noticiário dos jornais, dos rádios e das televisões. Os povos conhecem mais ESCADINHA do que Oswaldo Cruz. Os bicheiros têm papel saliente nas novelas das tevês e ganham o prêmio maior da conquista das JOCASTAS tipo Vera Fischer. As cenas do despudoramento ganham as telas caseiras. Sepultou-se a nudez como sustento de publicidade malsã e de convocação dos sentidos. Vivem os ricos de extravagâncias, desperdícios e futilidades, gastando a rodo os dinheiros embolsados e adquiridos de maneira pouco recomendável e sob condenação generalizada. Mulheres e homens milionários passam as noites em solene uiscadas. Gastam dezenas de salários mínimos nas festas e nos casamentos dos filhos sem trabalho. Vestem-se de trajes luxuosos, dissipam fortunas em episódios sem sentido. Assim vem sendo a pátria amada, ingrata com os humildes e pequenos, que só encontram conforto nas criminosas ações de roubo e vingança. O menosprezo dos bens culturais, porém, completa o quadro assustador em que mergulha a nação. Aboliu-se a leitura nos hábitos familiares e educacionais. que se lê no Brasil? Nada. Apenas uma elite conhecida ainda participa dos ensinamentos dos livros. Preponderam insultuosos esquecimento dos melhores documentos da literatura nacional. Ninguém conhece mais os nossos grandes escritores. As solenidades cívicas desapareceram. Ainda se realizam alguns lançamentos de obras entre amigos íntimos. A cultura corresponde a notável pasmaceira generalizada. As televisões fabricam as mais das vezes asneiras enlatadas. Centenas de cantores se exibem, em cantigas de músicas e letras inexpressivas. não se ouvem mais os grandes momentos da música. A arte dramática vale pornografia. A nação debilita-se. Estertora. Extinguem-se os seus mais sagrados caminhos espirituais. Quando uma nação se alimenta de futilidades e despreza a sua língua, a sua história, o seu patrimônio moral - e vegeta deseducada e amorfa - está doente, agoniza sem salvação.


A. Tito Filho, 26/06/1989, Jornal O Dia

terça-feira, 27 de setembro de 2011

A BÍBLIA

A Bíblia é livro eterno como a sabedoria divina. Cada um de nós encontrará nas suas páginas a lição do amor e da virtude e mais do que tudo a fragilidade das cousas terrenas.

A traição de Judas, Pedro negando o Mestre, a justiça de Pilatos, a crucificação, a ressurreição, a incredulidade de Tomé - ensinam que o homem é fraco e só poderá encontrar conforto na grande sabedoria divina.

Há, na Bíblia, lições eternas, que são um hino à grandeza de Deus na criação.

Um livro de piedade dos homens e da impiedade dos homens: nada de novo até hoje. Nada de novo sob o sol. A humanidade, desde os tempos bíblicos, tem sido a dos homens que martirizam e a dos que não martirizam. Tudo na conformidade da vontade de Deus.

Tenho impressão de que se a humanidade lesse a Bíblia, meditasse sobre seus ensinamentos, recolhesse as suas lições - tenho impressão de que a humanidade seria outra, conquistaria a sua grandeza, que só pode ser feita da sabedoria divina.

Impiedoso, com a sua impiedade o homem gerou o inferno em que vive, contemplando a agonia lenta de uma civilização que desaparece amortalhada no seu destino infeliz e devorado pelos seus próprios erros.

A impiedade é o pecado. A sabedoria se opõe ao pecado. Ser sábio é ser justo, é amar o próximo.

A humanidade, sempre e cada vez mais, precisa da sabedoria do Cristo, eterna como a própria Bíblia.


A. Tito Filho, 29/07/1989, Jornal O Dia    

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

COMENTÁRIO

Por mais otimista que o brasileiro seja, ou pretenda ser, não pode desconhecer que o país se encontra em postura pré-agônica. Os problemas multiplicam-se dia por dia. Campeia a violência. Vigora o assalto. Mata-se por vingança, por ambições contrariadas, ou na defesa de princípios ilegítimos. Dinheiros sem conta se gastam na aquisição de tóxicos. A cocaína tem circulação internacional. Os sanatórios se povoam de jovens viciadas, vítimas de banditismo em todos os países. Faliu a escola pública, substituída pelos balcões comerciais dos estabelecimentos particulares. Os professores perderam o status social. Falta-lhes preparo e equilíbrio. Têm nervos à flor da pele por virtude das dificuldades financeiras. Sepultam-se infelizes estudantes, decepcionados, desiludidos, de futuro incerto. As universidades fabricam doutores sem que se lhes conceda mercado de trabalho. O homem sem terra e sem teto do interior busca a cidade grande e acrescenta mais dificuldades aos centros urbanos, na constituição da estupidez das megalópoles. O trânsito apavora, suprime vidas, enlouquece motoristas e pedestres. As moradias desconfortáveis, espremidas, constitutivas de conjuntos habitacionais sem higiene, são fonte permanente de promiscuidade. Meninos suburbanos se alimentam de barro das ruas, à procura de suprir deficiências orgânicas. Ignorância generalizada. Analfabetismo envergonhante. Penitenciárias entupidas de toda espécie de criminosos e contraventores, em cubículos miseráveis, famintos, sem qualquer assistência espiritual, presos revoltados e sempre dispostos à reincidência. Fome e desemprego. Menores sem lar, sem afeto, escorraçados, educados para a delinqüência. Meninas adolescentes entregues à concupiscência de amorias, em bordéus de luxo, alunas de um sistema de televisão nocivo à dignidade de espécie humana, em que as TIETAS, de vergonhoso despudor, desvirginam os sobrinhos seminaristas, episódio revoltante, com que o Brasil se diverte, talvez, digno do espetáculo de sexo e luxúria. a esperteza, no país, tornou-se sinônimo de heroísmo. Quanto mais se rouba, mais se colhem aplausos. Triunfam os que enriquecem à custa de golpes bem dados. Os jornais acusam e ninguém se defende. Os ladrões de colarinho branco gozam de privilégios da impunidade. A criminosa especulação imobiliária aleija cidades e não tem freios. À sua custa nascem, crescem e se desenvolvem nababescas personalidades. As leis quase sempre têm endereço certo, assentam-se sobre irrecusáveis casuísmos. Não se respeita ao menos o aviltante salário mínimo dos que se empregam subordinados a regimes trabalhista, sonegado oficialmente e por profissionais liberais. Descumprem-se deveres legítimos. Professa-se a filosofia da malandragem. País do carnaval, da licenciosidade, da falta de discernimento. Violam-se direitos dos humildes. As filas nas ruas, em busca dos serviços públicos assistenciais, envergonham e humilham. Tornou-se vitoriosa a contravenção da jogatina. O próprio governo explora loterias, lotos, lotecas, senas, e até governantes já foram denunciados como sócios de jogo do bicho. Anuncia-se que algumas contribuições estaduais permitem o funcionamento dos cassinos, nos quais tudo se perde, inclusive a honra. Qual o setor deste país que funciona no cumprimento das suas finalidades? Talvez exista algum, embora seja difícil registrá-lo. Que dizer dos banqueiros privados e dos oficiais? Os juros andam em cinqüenta por cento ao mês, isto é, a usura atinge o sem-fim. E a inflação? E a monstruosa burocracia, a massa imensa com que o país, os estados e os municípios e as estatais gastam somas incaláveis? Num Brasil assim, só os ricos, os milionários, os empanzinados de lucros absurdos e desonestos, o soçaite fútil e dissipador, que afronta a pobreza de quase todos - só os ricos sobrevivem e gozam a vida, embora inseguros da própria inutilidade.


A. Tito Filho, 25/10/1989, Jornal O Dia

domingo, 25 de setembro de 2011

NOVA CIVILIZAÇÃO

Quando cheguei ao rio, para estudos, nos anos 40, havia na cidade UM edifício alto, de vinte e dois andares. Chamava-se A NOITE e nele funcionavam duas empresas nacionais, responsáveis por um jornal, uma revista e uma rádio. O espigão constituía atração da antiga cidade maravilhosa. Nos dias de domingo, muitas pessoas faziam visitação ao terraço do prédio, nas alturas, para contemplação da paisagem. Pagava-se pequena taxa de ingresso. Na avenida Rio Branco viam-se edifício de três, quatro, seis andares, de feitio antigo. Célebre, o Palace Hotel, que vinha da primeira República, importante, hospedagem de políticos, sobretudo. Em Copacabana, de seis andares, o internacional Palace, hospedagem famosa de reis, artistas e milionários. Ruas e praças do aristocrático bairro eram mansões elegantes e confortáveis. A praia encantadora tinha chalés e mais chalés bonitos, habitações familiares de primeira classe, luxentas, convidativas. No máximo de dois pavimentos, o térreo e o superior. Não se via um só edifício de APARTAMENTO, em lugar algum da antiga capital do Brasil. Para a vitória dos rebeldes em 1930, com Getúlio Vargas à frente do movimento tenentista, vendeu-se o Brasil aos Estados Unidos. Iniciava-se de pouquinho, a civilização dos enlatados, dos salgadinhos, da roupa feita, bem assim dos APARTAMENTOS; nos quais nascem as crianças já prisioneiras dos pequenos espaços para o engatinhamento e crescem de bundinhas feridas nas quinas dos móveis espremidos em salas reduzidas. Civilização do APARTAMENTO, ou APERTAMENTO, como lhe chamou humorista nacional. Quem não se lembra da marchinha publicitária dos remados fins da década de 30? Era assim:

   Se você fosse sincera,
   Ò... Ò... Ò... Ò... Aurora,
   Veja só que bom que era
   Ò... Ò... Ò... Ò... Aurora...
   Um lindo apartamento,
Com porteiro e elevador
E ar refrigerado para os dias de calor,
   Madame antes do nome,
   Você teria agora,
Ò... Ò... Ò... Ò... Aurora...

E em Teresina? Que dizer dos nossos apartamentos? Chegaremos cá, na próxima lição.

A. Tito Filho, 26/09/1989, Jornal O Dia 

sábado, 24 de setembro de 2011

NATAL

Em Teresina, como em quase todas as cidades brasileiras, o Natal constituía a mais linda festa do ano, significativa por excelência, sobretudo na comunhão espiritual da comunidade. Alegria nos corações. A graça e a beleza artística dos presépios nos templos religiosos - e o Menino Deus vestidinho em camisa muito alva de seda ou de cambraia. A meia-noite a missa do galo, igreja repleta de gente de variada categoria social. Os sinos repicavam mensagens de amor para que todos se fizessem mais irmãos. Depois do ofício divino, no lar de rico aconchego afetivo, a família se entregava, unida em carinho, a ceia natalina, composta do peru morto na véspera e assado nos velhos fornos de barro, com o braseiro bem vivo e ardente. A farofa da ave era uma gostosura. Comiam-se outras iguarias saborosas, preparadas por cozinheiras de doutos conhecimentos nesses assuntos culinários. Não se desprezavam o bom vinho, nem a doçaria de dar água na boca.

Os tempos correram na sua marcha inexorável. A produção industrial aumentou de modo incontrolável. Houve necessidade de vender e vender sempre mais. Inventou-se o rádio. Criou-se a televisão. A propaganda intensa dentro dos lares transformou o Natal num período de angústia generalizada, aperreante, aflitivo, de ânsias para os assalariados na consecução do dinheiro destinado a compra do presente. Esqueceram-se as lições de humildade do Menino da manjedoura de Belém. Cristo passou a objeto das ambições da indústria e do comércio. Avilta-se a beleza do episódio do nascimento. O silêncio da gruta se desrespeita com a barulheira infernal dos anunciantes e dos camelôs de enjoativa palração.


A. Tito Filho, 25/01/1989, Jornal O Dia

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

ESTUPIDEZ

Faz poucos dias houve jogo de futebol internacional em Teresina. Brasileiros e paraguaios disputaram o domínio da bola, coma vitória dos primeiros. Tive muito desejo de ir à festa cívica, mas temi a multidão. Não posso desamar o futebol, pois brinquei nos becos de minha cidadezinha de Barras, com a molecada de meu tope, de bola de meia, e nesse tempo, entre nós, vigoravam os empurrões e as rasteiras. Era bom. Depois me acostumei a presenciar bonitas pugnas futebolísticas em Fortaleza e Rio de Janeiro. Uma beleza. Muito entusiasmo na alma popular. Embates vibrantes. Torcidas entusiasmadas.

Passaram os tempos ditosos. Futebol no mundo de hoje supõe paixão desenfreada, sopapos, bofetões, tiros e até morte. De vez em quando as tragédias entristecem as comunidades. Impera a paixão, que conduz às atitudes incontroláveis. Liquidou-se o espírito de companheirismo. Cada qual enxerga no vizinho o inimigo. Talvez a causa esteja na solidão do brasileiro, nas posturas de protesto contra a angústia universal. Por toda parte, agressividade e irracionalidade.

Na apreciação de um livro desse incomum cidadão de espírito coletivo chamado Carlos Said, escrevi que Érico Veríssimo observa curiosa predileção do mexicano de rua pelos fogos de artifício, principalmente pelo foguete e pelo busca-pé, e tanto um como o outro tem dois predicados que o mexicano admira do funda da alma: são explosivos e chispantes. No futebol do Brasil o que as vezes dá impressão de alegria, constitui fúria, o que parece contentamento, corresponde a violência. Futebol no Brasil semelha revolução, explosão, válvula de escape para a violência reprimida, uma atitude bovárica irreversível, um protesto da angústia, uma fuga da realidade, uma forma de evasão.

Faz poucos dias, na Inglaterra, torcedores que não puderam ter ingresso num jogo, em virtude de lotação esgotada, tomados de paixão, invadiram as dependências do estádio e deu-se a tragédia estúpida, sufocando-se uns duzentos. Verdadeiro crime da bestialidade, como os mostrados por Zola, nas multidões compostas de neuróticos, anormais, inoculadores do veneno da loucura no corpo coletivo. Verdadeiros recalcados de Freud.

Não fui ao jogo Brasil-Paraguai. Não confio nas multidões, que as vezes se tornam instintivas e bestiais.


A. Tito Filho, 25/04/1989, Jornal O Dia

SÃO PEDRO - II

E as grávidas? São Pedro guarda o título de patrono das grávidas, às quais concede a esperança do bom parto, do parto feliz, e a elas ainda tem o dom de esclarecer o sexo do nascituro. Consagram as gestantes ao excelso patrono orações de muito fervor, e rezas de variada concepção, já incorporadas, ao patrimônio folclórico dos povos, ricas de intensidade religiosa, extraordinárias na pureza da fé no santo chaveiro.

Estudiosos dessas manifestações espirituais das comunidades atestam a existência de um ciclo de estórias, de poesias, de crenças envolventes do nome do santo chamado de Jesus - invocações com fundas raízes na alma tradicional, que se repetem séculos fora, que se transformam, que aparecem e reaparecem com variantes, mas nunca morrem, por que as criações anônimas do povo têm força, perpetuem-se, dada a circunstância mesma de que é imortal a sabedoria que brota espontânea e viva da fé dos simples.

Vigora em redor de são Pedro um anedotário de muito espírito - um anedotário que tem origem na inteligência do chaveiro, na sua simplicidade, - a simplicidade que o levava a abdicar da rigidez e severidade dos conselhos e dos julgamentos, e lhe concedia o ar paternal, de suavidade, sem descurar das obrigações do apostolado. Tornaram-se conhecidas as estórias das suas decisões à entrada dos céus - sempre sagaz contra a esperteza dos vigaristas desejosos de penetrar, por subterfúgios, no sagrado recinto. O juiz do ingresso dos bons e da recusa dos maus alcançou popularidade - e de São Pedro se fez o advogado, o melhor advogado da boa ou da má sorte dos que fecham os olhos a este mundo.

A simplicidade de são Pedro, as humildes origens da vida, o trabalho que desempenhava - pescador nos mares da Galiléia, fizeram do porteiro e juiz da entrada celestial um eleito de Deus de grande popularidade, daí por que vive no apreço geral - principalmente na estima dos pobres, dos sem grandeza, contemplados apenas, das riquezas da fé, resignados, mas esperançosos do valimento do prestígio do santo.


A. Tito Filho, 25/07/1989, Jornal O Dia

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

CREMAÇÃO - II

No Brasil, o velório, as vestes do defunto, a palidez cadavérica, tudo isto transmite sensação de pavor aos familiares e aos circunstantes. Dizem que o brasileiro tem a mania de imitar o norte-americano. Imita-o até no mastigamento de goma, marca registrada, o chiclete. Mas imita-o no que não deve, e deixa de imitá-lo no que seja bom. Pois o povo dos Estados Unidos faz idéia diferente da morte. Por toda parte, lá, existem as funeral homes, prédios, antes de mais nada, simpáticos, a que se refere Carlos de Alcântara, que morou na terra do esperto Tio Sam: "O cliente (o morto) é trazido numa Limusine grande, toda fechada, discretamente. Numa sala dos fundos, um especialista, diplomado, auxiliares que de certo já trabalharam em salão de beleza, dão-lhe aspecto apresentável, composto e de longa duração. Em seguida, passam-no para uma sala de estar, confortável, sobriamente ornamentada, onde ele fica descansando por dias, antes da viagem final. Ao lado, num cômodo separado, a família se reúne com os amigos, para contar como foi. Na data marcada, lá vai ele de novo na Limusine, seguida de vários carros particulares, todos de faróis acesos...".

Tem o norte-americano horror às cousas mórbidas, e esse horror o leva a esconder "imagens e idéias que lembrem a morte e a doença".

Leiam o depoimento de Érico Veríssimo: "Os remédios se vende nos drugstores, que são belas lojas onde encontramos artigos de perfumaria, sanduíches, comidas quentes, bebidas em álcool, doces, revistas, jornais... O balcão das drogas está escondido no fundo da casa. Os cemitérios são verdadeiramente parques. Os defuntos são entregues a empresas funerárias, que se encarregam de todas as cerimônias fúnebres. Os amigos do morto comparecem, tomam um coquetel num silêncio alinhador ou numa conversa discreta, e tudo se processa sem alvoroço. Não encontrei durante toda a minha viagem uma única pessoa de luto fechado. Outra cousa curiosa: há cemitérios que fazem anúncios como se fossem teatros, parques de diversão ou artigos de toucador. Na Califórnia existe um cartaz em frente à porta central um letreiro colorido... Encontro na revista, entre os anúncios de cabarés, duas páginas com a fotografia do cemitério-parque".

Melhor queimar ou enterrar o sujeito que entregou o couro às varas?


A. Tito Filho, 24/04/1989, Jornal O Dia

terça-feira, 20 de setembro de 2011

NECROTÉRIO

Em português há considerável número de palavras provenientes do grego antigo, sobretudo na linguagem cientifica e no batismo de novas invenções do homem; cardiologia, estomatite, geografia, hipopótamo, quiromancia, telefone, para citar alguns exemplos. Existem casos raros de uso de elementos gregos para que se substituam palavras de outras línguas, como se verifica com NECROTÉRIO, neologismo criado pelo Visconde de Taunay, autor do célebre romance "Inocência", para substituir a francesa MORGUE, que se empregou até o século passado.

Em princípios de 1872 - escreveu Taunay - o dr. Ferreira Viana teve a idéia de fazer remover o depósito de cadáveres da ladeira da Conceição, de um quartinho escuro e indecente, para lugar e construção mais apropriado àquele caridoso fim. Nessa ocasião procurou ele alguma palavra que, concisamente, denominasse o lúgubre albergue, rejeitando a nacionalização de morga, que foi proposta e até apareceu por algum tempo em jornais.

Taunay aceitou, a pedido do Dr. Costa Ferraz, amigo de Viana, a incumbência de criar o substitutivo.

Dou a palavra ao autor de "Inocência":

Guiou-me afinal, e bem, a bela palavra cemitério, introduzida pelos padres da Igreja na baixa latinidade. Como é formosa, com efeito, e expressiva! Vem do grego coimeterion e significa das proteção ao sono. Estava achado o procurado neologismo, ajudanto-se tereo (projeto) e necros (morto). Eliminando-se os de necros, cheguei facilmente a necrotério".

Para Nascentes cemitério é dormitório. Apóia-o Bernardes: "Ao adro chamamos cemitério, palavra grega que vale o mesmo que dormitório".


A. Tito Filho, 21/12/1989, Jornal O Dia

ÍNDIOS

Nos Estados Unidos foi assim. Viviam os índios na paz das selvas, como donos da terra. Eles a habitaram em primeiro lugar. Eram colhedores. Não trabalhavam. Colhiam os frutos que as árvores lhes davam. Comiam a carne dos animais apresados e o peixe das águas opulentas. Não trabalhavam. Faziam sexo, comiam, dormiam. Aventureiros e colonizadores, em busca de riqueza, expulsaram-nos dos sítios dadivosos. As paisagens e virgens foram conquistadas por homens brancos, fortes e rudes, numa luta feroz, de emboscadas e de surpresas. Os índios odiaram os brancos e responderam com a violência. Incendiavam as casas na calada da noite, matando famílias, homens, mulheres, velhos e crianças. Páginas de sangue, sobretudo no oeste.

No Brasil o branco também, com a força das armas fez a liquidação de nações indígenas, por toda parte. No vasto território piauiense, ao tempo do inicio da colonização e dos currais, inexistia qualquer exemplo de disciplina. Era o pânico. E o vácuo. Dias perigosos. A volúpia mortífera das desgraças do meio. Domingos Afonso Mafrense penetrou o Piauí com os seus troços de gente. Contam que o bandeirante Domingos Jorge Velho fez o mesmo. Ambos colonizaram terras, senhores de sesmos e latifúndios. Apareceram os catequistas. O Piauí torna-se cenário histórico empolgante. A riqueza estava no gado e da rês se aproveitava tudo, a carne, os ossos, o tutano, bofes, cascos, couros, chifres, fezes, até o membro genital enorme. Em tudo o bovino, na panela, no cornimboque, nas liteiras, no gibão, nos arreios, nas portas nos calçados. O Piauí enfrentava problemas angustiantes de tardio povoamento, dificuldades de transporte, sem agricultura e sem escolas. E o problema do índio. Havia necessidade de exterminá-lo. Deu-se a matança perversa. João do Rêgo Castelo Branco liquidava todo tipo de índio: feto, recém-nascido, criança, adolescente, moço, maduro e velho. Fêmeas e machos. As peripécias sangrentas desse exímio degolador ingressaram na história. Cumpria ordens dos conquistadores da terra e cumpria-se sem um pitoco de remorso, alegre sempre. Um dos mais admiráveis genocidas da história, el grande matador, da forma que H. Dobal lhe deu apelido.

No Dia do Índio o Brasil e o Piauí deviam ter vergonha do que fizeram com os irmãos sem destino.


A. Tito Filho, 21/04/1989, Jornal O Dia

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

NATAL - II

Renato Castelo Branco, criador de momentos inesquecíveis de arte verdadeira, concebeu e escreveu esta jóia inimitável - uma lição de sabedoria e de verdade, intitulada A BOA NOVA:

Quando a Estrela de Belém
anunciou a Boa Nova
os Reis Magos vieram do Oriente
carregados de ouro
incenso e mirra
prostar-se ante o Menino Jesus.
Mais depois eles vieram
Heródes e Caifás
Judas e Pilatos
- a crueldade e intolerância,
a traição e o calvário.

A verdade está em que os homens criaram uma sociedade injusta e perversa, dividida em esbanjadores e famintos. Repudiam-se as lições do Menino-Deus. Há os que afrontam os maltrapilhos, os que matam para o sustento de ambições malditas, os que extinguem vidas para que os lucros se tornem partes em nome de irresponsabilidade. Neste mês de dezembro, houve no Recife um casamento em que se dissiparam milhões de cruzados em futilidades, em enfeitações, em trajes com rabo de dez metros de comprimento, em comes e bebes sobejantes, enquanto na capital pernambucana meninos esquálidos e famintos se alimentam de restos de comida das latas de lixo. Horas antes do ministério da gruta de Belém, a covardia, de tocaia, matou um líder que defendia os injustiçados e lutava pela preservação da natureza dadivosa. O dia 24 de dezembro representou a fartura na mesa dos ricos sem coração e a miséria do menino pobre, que nunca viu um brinquedo de Papai Noel. E muitos, coitados, pagaram com a vida o passeio de barco, de altas quantias, para as delícias de um trinta e um de dezembro no Rio, cidade de dramas de miséria e do crime dos miseráveis. Pobres vítimas da ganância e da irresponsabilidade.


A. Tito Filho, 26/01/1989, Jornal O Dia

QUEIMAÇÃO - I

Na manhã de 20 de setembro de 1988, pelas nove horas, Armando Basto me telefonou do Palácio de Karnak. Pedia que eu fizesse uma campanha a fim de despertar o interesse da comunidade na instalação de forno crematório em Teresina. O sujeito, antes de passar desta para vida pior, escolheria: ou terra nos peitos, ou queimação dos restos mortais respectivos. Caso o pobre diabo não pudesse manifestar a vontade, por ele falaria a família.

Prometi a Armando artigos sobre o assunto. De maneira do mesmo dia, Armando abotoou o paletó, entristecendo a comunidade.

No Rio de Janeiro e em São Paulo, já se instalaram fornos para incineração de cadáveres, por meio da eletricidade, num calor de milhares de graus. Certa ocasião, ouvindo a respeito do assunto, assim se pronunciou Dom Vicente Scherer, chefe da Igreja Católica no rio Grande do Sul: "A cremação de cadáveres não se opõe a nenhum artigo da fé cristã. Com a mesma facilidade Deus ressuscita um morto incinerado pelo fogo como outro reduzido a pó pela lenta decomposição do sepulcro. Mas os sentimentos de afeição aos entes queridos, que a morte arrebatou, insinuam e recomendam o habitual uso do sepultamento que parece conservar de alguma maneira a presença amada dos parentes e amigos que partiam pela identificação e conservação do lugar em que jazem os seus restos mortais".

Conclui o alto dignitário eclesiástico: "No intuito de inculcar a preferência pelo modo de sepultamento consagrado pela tradição milenar e recomendando pelo simbolismo de sua dignificação, o decreto do Vaticano, proíbe que a cerimônia de encomendação dos corpos, que são cremados, se faça no próprio lugar da incineração e não permite o acompanhamento do sacerdote celebrante no exercício da função até o forno crematório. Se alguém, portanto, tiver razões ou gosto para determinar a incineração do seu corpo, tem o direito de fazê-lo, mas recomenda-se o enterramento tradicional que melhor corresponde a laços afetivos que se estendem além da data do falecimento e melhor exprimem verdades fundamentais da fé que iluminam a vida e transfigura a morte".

Todos atestam que a morte é o fim da vida - certamente. Ninguém dela se exime. A vida supõe a morte, logo esta passa a circunstância natural, episódio de simplicidade sem contraste. Por que, então, depois da morte, o ritual trágico, impressionante, do enterro - cerimônia lúgubre, de indescritível tristeza, adotada no Brasil? Escritor de fama confessou:

- Não tenho medo da morte, tenho medo do enterro.


A. Tito Filho, 22/04/1989, Jornal O Dia 

A VIOLÊNCIA NOS ESTADOS UNIDOS

Saloons e dancings enchem de violência a vida norte-americana. De violência é a história da estrada de ferro, o cavalo-de-ferro dos índios, e a do telégrafo, que o dono da terra e o explorador das diligências não aceitavam. Tudo isto num mundo de liberdade para a libertação explosiva e derivativa do jogo e das bebedeiras desenfreadas, como substitutos da mulher.

Valia mais a vida do animal do que a do homem. A lei era a da pistola sobre o balcão da bebida e sobre a mesa do jogo. Era a lei também a estrela do xerife selvagem, em que se transformava o bandido do dia anterior. E nomes desfilam, os nomes dos "heróis" das canções populares: Sam Bass, Jim Bridger, Billy Brooks, Búfalo Bill, Calamity Jane, os irmãos Clements, Bill Doolin, Wyatt Earp, Pat Garret ( o matador de Billy the Kid), Doc Holyday, Jesse James, Bat Masterson, John Ringo, Johan Suttr, os irmãos Young - nomes que o livro e o cinema se encarregaram de universalizar e que ganharam popularidade, no seu tempo e tempos fora, todos cercados de admiração e respeito do povo, porque o povo cria que todos lutavam contra os opressores e os usurpadores, e roubavam ao rico para dar ao pobre - uma espécie de Robin Hood da Inglaterra. Eram amados e cantados.

Não há pois exagero em dizer-se que a violência se confunde com a história dos Estados Unidos, a violência do índio contra o branco, a violência provocada pela intolerância religiosa dos primeiros colonizadores, a violência ao tempo do ouro e das caravanas,a  violência para a defesa da terra, a violência ao tempo da expansão do gado, no leste como no oeste. E depois a violência da Guerra de Secessão, em que sulistas e nortistas se odiaram, e ainda a violência do negro libertado contra o branco e do branco em maioria contra o negro. E depois a página triste do gangsterismo de Al Capone e de Dillinger - a violência que é na América do Norte, como acentuou Brienne, um culto de destruição dos seres humanos, marca do ficcionismo popular falado, escrito, televisionado e exibido nos cinemas, numa propaganda ostensiva e subliminar de truculência e do recuso aos meios extremos de ódio para tudo resolver.


A. Tito Filho, 20/07/1989, Jornal O Dia

domingo, 18 de setembro de 2011

NATAL

Em Teresina, como em quase todas as cidades brasileiras, o Natal constituía a mais linda festa do ano, significativa por excelência, sobretudo na comunhão espiritual da comunidade. Alegria nos corações. A graça e a beleza artística dos presépios nos templos religiosos - e o Menino Jesus vestidinho em camisa muito alva de seda ou de cambraia. À meia-noite, a missa do galo, igreja repleta de gente de variada categoria social. Os sinos repicavam mensagens de amor para que todos se fizessem mais irmãos. Depois do oficio divino, no lar de rico aconchego afetivo, a família se entrega, unida em carinho, à ceia natalina, composta do peru morto na véspera e assado nos velhos fornos de barro, com o brasileiro bem vivo e ardente. A farofa da ave era uma gostosura. Comiam-se outras iguarias saborosas, preparadas por cozinheiros de doutos conhecimentos nesses assuntos culinários. Não se desprezavam o bom vinho, nem a doçaria de dar água na boca.

Os tempos correram na sua marcha inexorável. A produção industrial aumentou de modo incontrolável. Houve necessidade de vender e vender sempre mais. Inventou-se o rádio. Criou-se a televisão. A propaganda intensa dentro dos lares transformou o Natal num período de angústia generalizada, aperreante, aflitivo, de ânsias para os assalariados na consecução do dinheiro destinado à compra do presente. Esqueceram-se as lições de humildade do Menino da manjedoura de Belém. Cristo passou a objeto das ambições da indústria e do comércio. Avilta-se a beleza do episódio do nascimento. O silêncio da gruta se desrespeita com a barulheira infernal dos anunciantes e dos camelôs de enjoativa palração.

Renato Castelo Branco, criador de momentos inesquecíveis de arte verdadeira, concebeu e escreveu esta jóia inimitável - uma lição de sabedoria e de verdade, intitulada A BOA NOVA:

Quando a Estrela de Belém
anunciou a Boa Nova
os Reis Magos vieram do Oriente
carregados de ouro
incenso e mirra
prostar-se ante o Menino Jesus.

Mas depois deles vieram
Herodes e Caifás
Judas e Pilatos
- a crueldade e a intolerância,
a traição e o calvário.

O canto maravilhoso de Júlio Romão da Silva é emocionante, quando põe, numa peça teatral, as verdades na boca do Mestre:

Existiam dores no mundo, sonhei um mundo sem dores, havia feridas no mundo, sonhei um mundo sem chagas, havia um mundo faminto, sonhei um mundo sem fome, havia lágrimas no mundo, sonhei um mundo sem lágrimas, havia um mundo recluso, sonhei um mundo sem grades, havia um mundo servil, sonhei um mundo liberto, havia um mundo odiento, sonhei um mundo sem ódios, havia um mundo com muro, sonhei o mundo sem muro, havia um mundo sem paz, sonhei a paz para o mundo - E MATARAM-ME. Ó sátrapas, ó víboras, ó abutres, ó vampiros, ó répteis, ó sacripantas, ó chacais! Quando deixareis o charco e a carniça? Quando ouvireis a melodia do meu canto e vereis a beleza do meu sonho? Quando parareis de me matar para entenderdes a mensagem do meu Salmo?


A. Tito Filho, 24/12/1989, Jornal O Dia

LARÁPIO

Contam que houve em Roma um pretor que dava sentenças favoráveis a quem melhor pagava. Chamava-se ele Lucius Antonius Rufus Appius. Sua rubrica era L. A. R. Apius. Daí chamar-lhe o povo larapuis, nome que ficou sinônimo de gatuno. Este é o étimo de Nascentes, no Dicionário Etimológico, tirado das "Frases e Curiosidades Latinas", de Artur Resende.

Morais, Fernandes e Figueiredo limitam-se a dizer que larápio é sinônimo de ratoneiro, ladrão, gatuno, mas não lhe apontam origem. Mestre Tenório d'Albuquerque inscreve larápio na relação das palavras criadas pela inteligência popular, com a reunião das iniciais de Lucius Antonius Rufus ao último nome Rappius, formando-se larappius, que passou a indicar o individuo venal, desonesto.

Não vimos, em muitos livros consultados, outra fonte para a palavra larápio. Daí nossa crença de que as qualidades negativas do pretor romano se tenham imortalizado através da ironia do povo. O processo realmente não é novo. e a ele se refere a autoridade de Dauzart:

"Lá influência de 1ª escritura se ejerce de maneira bastante curiosa sobre 1ª formacion de las palavras. Lá costumbre de designar ciertas palavras compuestas por las iniciales de sus letras - costumbre al princípio escrita, y en seguida oral - há creado, desde hace poco, en todas las lenguas, nuevos términos, de origen puramente gráfico, y que atestiguan su vitalidade dando origen ellos mismos e derivados" (La Filosofia del Lenguaje).

E o grande mestre cita a palavra francesa cadet, que se formou das letras KD, iniciais de Konstitucional Demokrat.

Muitos vocábulos estão vivos na linguagem oral e escrita através do processo das iniciais. Entre nós se popularizou DASP (Departamento Administrativo do Serviço Público), de que já se tira o adjetivo daspiano no sentido de autoritário, para lembrar que o órgão possuía mentalidade ditatorial, pois nascera em tempos de ditadura.

Na fala dos bebedores de cerveja vigora a expressão beber cif. Estas iniciais internacionalizadas pertencem às palavras inglesas Cost, Insurance e Freight (custo, seguro e frete). O preço de uma mercadoria seguida de cif indica que, na quantidade pedida, estão incluídos o custo, o seguro e o frete. Beber cif é beber gratuitamente, à custa alheia.


A. Tito Filho, 20/12/1989, Jornal O Dia

PERNOSTICISMO

Cidade amável, simples, humilde, Teresina, porém, de alguns anos passados aos dias de hoje se vem tornando antipática, pedante, cheia de nó pelas costas com a valorização de uma elite de NOVOS-RICOS, aquelas pessoas de riqueza recente, conseguida com rapidez, as vezes na sorte das lotecas ou outro tipo de jogatina nacional. Sempre inculto e de pouca instrução, o novo-rico procura revelar hábitos de refinada ridicularia, sobretudo na fala inculta e nos trajes espalhafatosos, e com estes conquistam a posição almejada de AS DE MAIS e, no caso de homens, OS ELEGANTES. Os nossos bons colunistas sociais, inteligentes sempre, devem rir muito de tais espevitações masculinas e femininas e a ricos e ricas atribuem superlativos como elegantérrimo, chiquérrima e quejandos. bestice de vaidosos.

Mas passemos a outra classe. Observamos os imitadores, os que copiam a linguagem alheia de modo errado e ridículo. RIO POTI HOTEL não é expressão portuguesa, mas arremedação tola e subserviente do inglês. A forma vernácula está em HOTEL RIO POTI, em cujos salões existe uma denominação estapafúrdia: TARRAFA'S, sim TARRAFA'S, com o apóstrofo e o S. Sabe-se que tal se dá no inglês. A virgulazinha antes do S indica posse. Assim: DE TARRAFA. Que significa semelhante besteira? Na língua inglesa escreve-se BOB'S BAR, isto é, BAR DO BOB.

Pior a gente lê no seguinte: MARIANO'S COIFFEUR. Que diabo é isto? A tradução seria: CABELEIREIRO DE MARIANO, quando MARIANO é cabeleireiro dos outros. Interessante: a tolice mais se alarga porque a expressão pertence a duas línguas: MARIANO'S (inglês) e COIFFEUR (francês).

Teresina ridícula. E dizer que nesta cidade se cultivavam hábitos de fidelidade à bonita e hoje crucificada língua portuguesa.

COIFFEUR vale atestado seguro de besteirice local.


A. Tito Filho, 19/09/1989, Jornal O Dia

terça-feira, 6 de setembro de 2011

EDUCAÇÃO

Ninguém nega que houve a inchação populacional e que o ensino secundário público, a partir dos anos 50, começou, como dizem, a democratizar-se, ou teve as portas abertas a ricos e pobres, inclusive com a criação, para comerciários e filhos de operários, dos cursos noturnos. As escolas oficiais preparavam intelectualmente o estudante. Nomes ilustres e acatados constituíam o magistério responsável e conhecedor das disciplinas dos seus encargos, salvo as raríssimas exceções que recebiam o desprezo dos alunos e da família. A decadência da escola secundária, de modo geral, progrediu na década do chamado desenvolvimento kubistschekiano, quando a tarefa de educar passou aos estabelecimentos privados, que, naturalmente, tinham no lucro financeiro um dos objetivos dos seus proprietários. O preconceito social fez que os alunos ricos não aceitassem a convivência com os pobres e só a aceitassem com os negros ricos, numa revoltante e ainda persistente discriminação racial. Os baixos e injustos vencimentos dos mestres afastou-os do magistério. Havia profissões mais seduzentes pelos honorários obtidos num trabalho menos cansativo. Nos adolescentes e nos jovens pouco a pouco se matou o processo da leitura dos velhos tempos quando, nas aulas de português, os estudantes conviviam com a excelente prosa e poesia de autores nacionais. A revolução moça de 1968 em Paris aniquilou a família e os processos educacionais. Empacotaram-se os princípios didáticos e pedagógicos. A televisão fez o resto, convocando os educadores para o erotismo, para a violência, para o desrespeito ao civismo, juntamente quando faz mau uso da  língua pátria e orienta o homem para hábitos nocivos de existência.

Em 1971, Jarbas Passarinho pratica mais uma reforma do ensino secundário. Cria os cursos profissionalizantes de segundo grau. Extingue o exame de admissão ao ginásio, para tornar, segundo a pregação, mais acessível a escola. Primarizou-se o curso ginasial. Os colégios particulares haviam sugerido o dístico pagou, passou. A decadência desastrosa patenteou-se ainda mais com a desqualificação do professor. A princípio, nos anos 60, palidamente se mostrava a face desqualificada do magistério, e com o correr dos tempos o fato se deu paulatina e constantemente. Os mestres de hoje abandonaram a leitura e são quase inteiramente desprovidos do elementar preparo de conduzir com segurança a inteligência da juventude. Existem pelo Brasil ainda grandes nomes do corpo docente, poucos, é verdade. As fábricas de professores pelas universidades arruinou quase por completo a profissão de ensinar. Ninguém de sã consciência nega o direito de grave, mas o abuso dessa prerrogativa está-se tornando enervante e repudiada por alunos, pais e pela sociedade em geral. As exigências de salários mais altos pela greve, na freqüência com que se verifica, causa prejuízos de toda ordem sobremodo ao jovem brasileiro. Haverá um jeito de a lei fixar que a remuneração deve subir toda vez que houver aumento de custo de vida, que as próprias entidades oficiais apuram. Arrocho salarial corresponde a estupidez. Se não é possível congelar preços de gêneros de primeira necessidade, menos aceitável será sufocar o homem pela fome e pelo desespero.

Espantosas são as decepções da juventude brasileira na escola. Agora um dos heróis do civismo nacional, o Tiradentes, cuja memória se homenageava todos os anos no dia do seu enforcamento, 21 de abril, revoltado viu que anteciparam o seu sublime sacrifício para uma segunda-feira qualquer. A juventude já não tem ao menos oportunidade de cultivar os que, pelo Brasil, padeceram a vileza da força.


A. Tito Filho, 19/06/1989, Jornal O Dia