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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

GREVE E EDUCAÇÃO

Até poucos dias atrás o país viveu a rotina das greves, finalmente encerradas por algum tempo, pelo menos no período que separa os brasileiros das eleições presidenciais. Persistentes foram os professores, sobretudo em são Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Piauí, em movimentos acintosos contra a educação. Neste país insensato suspenderam-se atividades escolares contra o direito de adolescentes e jovens, privados dos estudos por supostas prerrogativas constitucionais, num país de escolas falidas no âmbito público e de colégios comerciais, subvencionados pelo governo, na área privada.  Sempre condenamos essas greves baseadas em conflitos salariais e conflitos políticos, promovidas em prejuízo de estudantes já de si frustrados por razões diversas e mais do que tudo pelo ensino decepcionante. Não deixamos de condenar a triste situação do magistério despreparado desta época conturbada, professores improvisados, sem progresso intelectual de espécie alguma, sem cultura humanística, de linguagem trôpega e incorreta e que levam às salas de aulas paixões partidárias e angústias íntimas, nascidas da decadência da profissão. Limitam-se a pregar rebeldias e a passar deveres de casa para um auditório de vitimas indefesas. Ganham migalhas os professores do momento, embora ensinem mal e deseduquem melhor. O status social dos mestres antigos desapareceu, relegando-se os atuais as mais das vezes ao desprezo ou à desconsideração generalizada. A profissão não atrai os estudiosos como antigamente. Dela participam pessoas que deveriam exercer outras profissões. O governo, de sua vez, considera o ensino problema aborrecido e enervante. Nada pratica para dar-lhe rumos seguros e recuperá-lo. Dá preferência aos absurdos gastos com propaganda pessoal, obras sunturais, mordomias condenáveis. Os professores grevistas ofereceram a sociedade espetáculos deprimentes. A greve deve ser um instituto sério e com o qual os trabalhadores decretam a ausência ao trabalho desde que faleçam os processos legítimos para o atendimento de reinvidicações justas. Mas acontece no Brasil, como recentemente se verificou em São Paulo e Rio de Janeiro, é que os professores grevistas, em grandes ajuntamentos e desfiles pelas ruas de trânsito intenso, impediram que os veículos servissem a população, prejudicada assim nos seus direitos fundamentais. No Piauí, os professores públicos tentaram prejudicar de modo condenável que uma festa cívica, com a presença do governador do Estado, decorresse normalmente - justamente a festa de reinauguração do colégio querido da comunidade, o velho Liceu Piauiense, obrigando-se a polícia a dispersar os manifestantes, que deveriam dar o exemplo de elevada compostura cívica. As greves, quando justas, amparadas pela lei, não necessitam das gritarias, das passeatas e dos xingamentos inúteis e que desacreditam os promotores. Elas devem ser sérias e sobretudo educadas e decentes, sobremodo quando partem de professores. Greves que reclamam pancadaria, ofensas, pedradas são aquelas que se repudiam por si mesmas e nada significam senão o desenfreio de paixões partidárias ou simplesmente políticas. Finalmente os grevistas em são Paulo, no Rio, e outros centros populacionais, em Teresina - voltaram ao trabalho. Quase nada obtiveram, ou tiveram o formidável e criminoso lucro de prejudicar adolescentes e moças sem aulas durante o primeiro período letivo de 1989. Será que os autores de tanto prejuízo a inocentes se sentem confortados dessas atitudes que só conduzem ao desprestígio da classe? Enfim, a nação brasileira se encontra tão desacreditada que até os professores relegam a plano inferior o material humano digno de afeto e carinho - os que têm necessidade de educar-se para a vida.


A. Tito Filho, 29/08/1989, Jornal O Dia

domingo, 11 de setembro de 2011

MAGISTÉRIO

Fiz quase todo o curso secundário no velho e querido Liceu Piauiense. Aulas de manhã e de tarde. Bons mestres, cultos, capazes, dedicavam-se fielmente aos deveres. Raramente havia queixa sobre professor gazeteiro ou embromador. É verdade que a didática e a pedagogia estavam ausentes do processo de aprendizagem. Mas os alunos, bem orientados, estudavam e aprendiam. Recordo-me dos meus tempos de estudante e dos títulos das disciplinas, sérios, ilustrados, corretos de atitudes, merecedores do apreço e da consideração da sociedade. Permaneceram na memória dos alunos da época os nomes de João Pinheiro, Benjamin Baptista, Anísio Brito, Joaquim Nonato Gomes (padre), Martins Napoleão, Edgar Tito, Raimundo Area Leão, Mário Batista, Moisés Pereira dos Santos, Agripino Oliveira, Francisco César Araújo, Álvaro Ferreira, Júlio Vieira e tantos outros, que deixaram exemplos na história do mais famoso educandário piauiense.

Anos depois, ingressei no magistério. Convivi com os sacrifícios da classe. Vencimentos magérrimos. Para o sustento próprio e da família o professor trabalhou muito, suava, nunca desfalecia das obrigações e os princípios da profissão. Ganhava-se quase nada por aula excedente. não me lembro de colega que gozasse do conforto do automóvel. Os colégios ao menos geladeira possuíam. Tive admiráveis companheiros, como Valdemar Sandes, Nelson Sobreira, James Azevedo, Lisandro Tito de Oliveira, José Eduardo Pereira, Luiz Lapa, Tomaz Arêa Leão Filho, Omar dos Santos Rocha, Petrarca Sá, Cunha e Silva, Helena de Greslan, Afonso Elvas, Odilo Ramos, Barreto Cordeiro, Clidenor Freitas Santos, Amália Pinheiro, Machado Lopes e quantos outros que a memória não lembra no momento, e que sempre mereceram os aplausos da juventude estudiosa.

No tempo em que fui nomeado para lecionar português, o bom Liceu se chamava Colégio Estadual do Piauí. Convocou-me o governo e me confiou a direção do estabelecimento. Lutei por melhores dias dos meus colegas e consegui que tivessem substancioso aumento, na primeira revisão geral de vencimentos proporcionada pelo governador Gayoso. E mais: o professor tinha a obrigação de ministrar apenas 40 aulas por mês em cada cadeira. A aula excedente tinha paga especial.

Duro o regime. Trabalho intenso e produtivo. Aprendia-se. Milhares e milhares de moços e moças são agradecidos aos mestres pela oportunidade que tiveram de aprimorar a inteligência. A sociedade piauiense reverenciava os professores notáveis duma época em que o magistério se exercia com rigoroso preparo de cada um para o processo educacional. Era bom.

OBS: no último comentário sobre Ofélio Leitão saiu CULTURA HUMORÍSTICA. Mas escrevi CULTURA HUMANÍSTICA.


A. Tito Filho, 22/06/1989, Jornal O Dia

terça-feira, 6 de setembro de 2011

EDUCAÇÃO

Ninguém nega que houve a inchação populacional e que o ensino secundário público, a partir dos anos 50, começou, como dizem, a democratizar-se, ou teve as portas abertas a ricos e pobres, inclusive com a criação, para comerciários e filhos de operários, dos cursos noturnos. As escolas oficiais preparavam intelectualmente o estudante. Nomes ilustres e acatados constituíam o magistério responsável e conhecedor das disciplinas dos seus encargos, salvo as raríssimas exceções que recebiam o desprezo dos alunos e da família. A decadência da escola secundária, de modo geral, progrediu na década do chamado desenvolvimento kubistschekiano, quando a tarefa de educar passou aos estabelecimentos privados, que, naturalmente, tinham no lucro financeiro um dos objetivos dos seus proprietários. O preconceito social fez que os alunos ricos não aceitassem a convivência com os pobres e só a aceitassem com os negros ricos, numa revoltante e ainda persistente discriminação racial. Os baixos e injustos vencimentos dos mestres afastou-os do magistério. Havia profissões mais seduzentes pelos honorários obtidos num trabalho menos cansativo. Nos adolescentes e nos jovens pouco a pouco se matou o processo da leitura dos velhos tempos quando, nas aulas de português, os estudantes conviviam com a excelente prosa e poesia de autores nacionais. A revolução moça de 1968 em Paris aniquilou a família e os processos educacionais. Empacotaram-se os princípios didáticos e pedagógicos. A televisão fez o resto, convocando os educadores para o erotismo, para a violência, para o desrespeito ao civismo, juntamente quando faz mau uso da  língua pátria e orienta o homem para hábitos nocivos de existência.

Em 1971, Jarbas Passarinho pratica mais uma reforma do ensino secundário. Cria os cursos profissionalizantes de segundo grau. Extingue o exame de admissão ao ginásio, para tornar, segundo a pregação, mais acessível a escola. Primarizou-se o curso ginasial. Os colégios particulares haviam sugerido o dístico pagou, passou. A decadência desastrosa patenteou-se ainda mais com a desqualificação do professor. A princípio, nos anos 60, palidamente se mostrava a face desqualificada do magistério, e com o correr dos tempos o fato se deu paulatina e constantemente. Os mestres de hoje abandonaram a leitura e são quase inteiramente desprovidos do elementar preparo de conduzir com segurança a inteligência da juventude. Existem pelo Brasil ainda grandes nomes do corpo docente, poucos, é verdade. As fábricas de professores pelas universidades arruinou quase por completo a profissão de ensinar. Ninguém de sã consciência nega o direito de grave, mas o abuso dessa prerrogativa está-se tornando enervante e repudiada por alunos, pais e pela sociedade em geral. As exigências de salários mais altos pela greve, na freqüência com que se verifica, causa prejuízos de toda ordem sobremodo ao jovem brasileiro. Haverá um jeito de a lei fixar que a remuneração deve subir toda vez que houver aumento de custo de vida, que as próprias entidades oficiais apuram. Arrocho salarial corresponde a estupidez. Se não é possível congelar preços de gêneros de primeira necessidade, menos aceitável será sufocar o homem pela fome e pelo desespero.

Espantosas são as decepções da juventude brasileira na escola. Agora um dos heróis do civismo nacional, o Tiradentes, cuja memória se homenageava todos os anos no dia do seu enforcamento, 21 de abril, revoltado viu que anteciparam o seu sublime sacrifício para uma segunda-feira qualquer. A juventude já não tem ao menos oportunidade de cultivar os que, pelo Brasil, padeceram a vileza da força.


A. Tito Filho, 19/06/1989, Jornal O Dia

terça-feira, 30 de agosto de 2011

AINDA VESTIBULAR

A mania nacional tem sido reformar o ensino. Cada ministro, uma reforma. Sem recuar muito no tempo, na década de 30 o brasileiro tinha um ginásio de cinco anos. Terminado este, submetia-se a exames para as faculdades, caso quisesse. O ministro Francisco Campos bolou uma reforma, séria, de que abaixo se tratará.

Estando ministro, Gustavo Capanema implantou nova reforma: quatro anos de ginásio, três anos de cientifico ou clássico. Concluídos, o jovem buscava, se lhe apetecesse, os exames de ingresso nas escolas superiores. A reforma Capanema, ela mesma, teve acréscimo e supressão de disciplinas. Nela meteu-se o espanhol, dela tirou-se o espanhol. Depois, chegaria a vez a abolir o francês. Introduziram-se organização social e política do Brasil e educação moral e cívica. E assim por diante, até que a estudantada desembocou na reforma Jarbas Passarinho, com a ensinança do primeiro e do segundo grau, ora em vigor. Ensino profissionalizante mas ninguém vai nessa profissionalização, porque todos querem o anel de doutor, mesmo sem mercado de trabalho.

A melhor reforma do país, foi de fato, a do ministro Francisco Campos. Cinco anos de ginásio, para a base humanística. Em seguida, o futuro profissional definia-se por um dos três ramos de preparatórios: o pré-jurídico, o pré-médico ou pré-técnico.

O pré-jurídico, por exemplo, era constituído de disciplinas necessárias ao bacharel em direito: estudavam-se biologia, sociologia, economia política, higiene, história da filosofia, literatura, latim - e assim o estudante ingressava na faculdade com excelente soma de conhecimentos. Antes do ingresso, havia o vestibular, não o vestibular de testezinhos, mas o de provas escritas em que realmente se podia mostrar competência.

Nos tempos de hoje se diz que a guerra do vestibular parece mais terrível do que a guerra entre árabes e judeus, pois esta é uma guerra de violentos choques e a do vestibular se torna guerra psicológica, donde os vencidos promanam frustrados, como se estivessem marginalizados do processo social brasileiro.


A. Tito Filho, 15/07/1989, Jornal O Dia

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

VESTIBULAR

A máquina surgiu no século XIX, mas o seu extraordinário poder pertence ao século XX, em que tudo passou a ser fabricado, inclusive menino. Natural, pois, que se montassem máquinas de fabricação de doutores, num país como o Brasil, em que o mercado de trabalho é muito escasso para o doutoramento.

O vestibular brasileiro tem sido uma farsa eloqüente. Nele não se verificam aptidões, mas a existência de vagas. Se a universidade possui mil vagas, pode aprovar mil candidatos e se fabricarão mil doutores, com certeza.

Já se provou que o sistema de preencher cagas é falível: o sistema dos testes. Durante meses, rapazes e moças andam pelas ruas, cadernos debaixo do braço, a fazer perguntas e mais perguntas, com o pensamento no exame aterrador:

- Quem descobriu o Brasil?

1) Foi você?

2) Foi Pedro Álvares Cabral?

3) Foi Pelé?

4) Ninguém até hoje descobriu o Brasil?

Neste ponto o candidato, se estava nervosíssimo da guerra psicológica do vestibular, fica doido. Lê duas vezes os quatro caminhos. E conclui, depois de muito suor: nunca descobri cousa alguma, logo não descobri o brasil. Mas alguém o descobriu. As perguntas 1 e 4 ficam exoneradas, portanto. Tenho certeza de que Pelé se encontra na história do futebol, jamais na dos descobrimentos. Resta Pedro Álvares Cabral. Xis nele.

Ainda vive o Brasil subservientemente com a exigência de inglês ou francês. Que necessidade tem o doutor de saber inglês ou francês? A própria universidade afirma que os dois são desnecessários, desde o instante em que confere ao candidato a prerrogativa da escolha entre uma e outra língua. Quer dizer: o futuro doutor, se quiser, prestará exame de inglês. Caso lhe dê na tela, desprezará o inglês e mostrará conhecimentos de francês. Assim, ou o inglês é reclamado pela formação intelectual do doutor, ou não, de acordo com a exclusiva vontade do candidato.

E por que não se exigem o alemão, o italiano, o russo, o holandês, o chinês?


A. Tito Filho, 14/07/1989, Jornal O Dia

domingo, 21 de agosto de 2011

PEDRO BRITO

Pelo fim do século estabeleceu-se em Teresina. Destinava-se a estudos ginasianos no Liceu Piauiense, único educandário oficial da terra. Adolescente, tinha uns 15 anos, mas altivo, como soem ser as personalidades normais nas diversas fases da vida. Teve no professor, José Joaquim de Morais Avelino (Casusa Avelino) o primeiro descontentamento. De modo geral os mestres brasileiros desconheciam o valor do afeto e da compreensão como processo educacional. Tornava-se intolerantes às atitudes da adolescência e repudiavam os arroubos da mocidade. Cada professor considerava a sua disciplina a mais importante nos estudos. Tempos tristes do magistério secundário, que ainda alcançamos em 1951 e anos seguintes, quando os lentes puniam os alunos, humilhando-os, e levavam para as aulas angústias pessoais, nervos abalados, problemas de família e raiva de quebradeira. Por ignorância das respostas, indeferiam perguntas dos discipúlos. Havia os de lições fraudulentas, correndo os olhos por papéis escondidos na palma da mão. Dias condenáveis do magister dixit, dos que liam alguma coisa de noite e arrotavam na manhã seguinte, orgulhoso do pecado contra a inteligência alheia. Além destes, os sádicos das reprovações e os embromeiros. Ainda hoje há muitos assim. É pena.

Casusa Avelino tinha competência na matéria que orientava, aritmética. Artista da pintura, muito aplaudido. Homem sério e respeitável. Desconhecia, como ainda agora, que ninguém, senão os anormais, podem armazenar a universidade do saber. Daí por que se criou a especialização. Nem os mestres sabem as 8, 9, 10, 11 e 12 disciplinas de cada série dos cursos ginasiais, seja no Piauí, seja no Rio Grande do Sul. Os colégios, entretanto, entretanto, exigem que os insocorridos estudantes escrevam ou repitam as lições de improviso e as que se transformam, para suplício dos pobres meninos, na enrolação dos deveres de casa. Em certa época se estabeleceu nota mínima para cada matéria e nota de conjunto de maior valor, para que se respeitassem as tendências dos estudantes, pois há os que aborrecem determinados estudos mas apreciam outros. Neste ponto se recorda que a antipatia do educando com uma ou outra, disciplina decorre as vezes dos métodos rançosos de professor, que não sabe ensinar, ou que não sabe o que pretende ensinar ou que antipedagogicamente se vale de xingações humilhativas.


A. Tito Filho, 12/01/1989, Jornal O Dia

domingo, 7 de agosto de 2011

AINDA PEDRO

Pedro Brito não gostava de aritmética. Convocado a resolver problemas de fração ordinária, embuchou. O lente, em vez de ajudá-lo, tachou-o de burro, insulto que o discípulo repeliu e retirou-se do exame. Depois, numa quadrinha irreverente, fez crítica a certo vício de Casusa Avelina, que dizia periúdo e não período. Tanto foi necessário. O mestre jamais aplaudiu a inteligência do rapazelho, que nada praticou de modo perverso, mas admitiu que se encontrava entre pessoas dispostas à convivência do bom humor. Casusa nunca deixou que o estudante obtivesse aprovação em aritmética. Pedro Brito buscou Fortaleza: era a maneira de fugir à violência, ao modo injusto de casar-lhe os anseios e os horizontes do futuro.

*   *   *

A popularização do professor, em Teresina, achamos que deu início o padre Joaquim Nonato Gomes, nos idos de 1932, no velho Colégio Diocesano. O sacerdote gostava dos seus alunos. Conquistava-os pela simplicidade das atitudes e dos méritos suaves da ensinança de português. Não nos lembramos, nos anos antigos, de outros do mesmo naipe. Depois Valdemar Sandes fez do magistério uma atração, a serviço da aprendizagem da língua pátria. Um sujeito rico de amizade aos discentes. E sabedor. O português expositivo tem no Piauí raros professores como ele. Seguro nos princípios redacionais. Nunca maltratou discípulos. De nossa parte, procuramos tornar a docência um prazer, um modo de atrair o coração dos jovens, de encaminhá-los para o dever das lideranças sociais. Hoje há os que se animaram de atitudes idênticas. Mas permanecem nódoas nas funções letivas.


A. Tito Filho, 13/01/1989, Jornal O Dia

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

LICEU - III

Nunca me esqueci do Liceu dessa época já distante, do Liceu dos adolescentes e dos jovens de famílias prestigiosas, de influência social, política e de dinheiro, ao qual gente humilde não tinha acesso, salvo por exceção. Dali guardo os meus melhores instantes de coleguismo, de amizade que tem varado anos. Os meus colegas de turma foram vitoriosos na vida, com Justiça. Entre os trinta e tantos, aí estão alguns, como Tasso Rego (Ministério Público), José Lopes da Cunha (crítico literário e jornalista), Raimundo Monte Santos (bancário), José Beleza (bancário), Wilson Brandão (mestre universitário, deputado estadual), João de Deus Fonseca Filho (industrial), e quanto mais, inclusive as garotas virtuosas, que quase todas se casaram. Fui contemporâneo de líderes estudantis que seriam famosos no futuro, como Carlos Castelo Branco, Abdias Silva, Vilmar Soares, Santos Rocha, José Barbosa, Rosa Amélia Tajra e os falecidos Domingos Monteiro Filho, Alencar Vieira e Luís Costa - quantos meu Deus, que a memória de vez em quando invoca, em episódios inesquecíveis.

Nunca me saíram da cabeça as peraltices notáveis da estudantada. Os jornaizinhos de críticas e piadas. Os assaltos às bancas de vendedores de frutas no mercadão da Praça Deodoro. As suspensões rigorosas pelos chamados atos de indisciplina. O repúdio aos delatores, bem assim aos furadores de greves. A intransigente solidariedade entre os colegas. Os processos de pesca nos exames escritos.

O Liceu, como hoje, era de ensino misto - moças e rapazes. Pois ali nasceram os primeiros namoricos, de muito platonismo. Mas havia a turma dos devassos, os que, entre outras práticas, amarravam um pedaço de espelho no bico da botina e o colocava por baixo da saia da garota descuidada, nos instantes de recreação pelos corredores, intervalos das aulas. Pelo menos o sem-vergonha conseguia enxergar as calças internas da menina, umas calças que vinham até a metade da coxa e eram abotoadas de lado. Descoberta a sem-vergonhez, o tarado levava tapona da vítima e pegava severa suspensão.


A. Tito Filho, 09/08/1989, Jornal O Dia

sexta-feira, 15 de julho de 2011

LICEU PIAUIENSE - V

No regime republicano, com a equiparação ao Colégio Pedro II, o Liceu progrediu sensivelmente. Ilustres intelectuais o dirigiram e conseguiram resultados benéficos. A partir de 1930, submetiam-se os alunos a severa disciplina, razão de constantes choques entre mestres e estudantes, estes inacessíveis àqueles. Vigorava o principio da infalibilidade professoral.

O velho Liceu, com o passar dos anos, apesar do respeitável corpo docente que possuía, era mal visto pela sociedade em razão das atitudes deseducadas de estudantes, que nada respeitavam. Iniciou-se também o descaso dos professores no cumprimento dos deveres com relação às aulas, a que eles pouco compareciam, feitas as exceções naturais. Esses aspectos negativos desapareceram na direção do professor Wilson Brandão, em 1951.

Entrou no Liceu em nova fase de grande decadência. Somente a partir de 1954, a direção do professor Tito Filho estabeleceu regime de disciplina, ordem, respeito, com o apoio de todas as classes sociais. Organização escolar. Conscientização do estudante para o zelo de suas obrigações. Cuidados especiais com o ensino e com a educação. Aulas diárias de português nas primeiras series ginasiais. Interesse dos pais na aprendizagem e no comportamento dos filhos. Primeiros passos na educação cívica e religiosa. Medidas iniciais de homogeneidade na distribuição por turmas. Rigoroso e honesto exame de admissão.

As direções posteriores mantiveram o alto nível de funcionamento do Liceu.

De uns quinze anos aos dias de hoje o Liceu tornou-se irreconhecível. Deteriorou-se a sua estrutura física. Rendimento quase nulo do ponto de vista educativo. Necessitava de recuperação, de higiene e de segura orientação funcional. À Secretaria da Educação Estadual caberiam as medidas consubstanciadas no projeto de Revitalização do Colégio Estadual Zacarias de Góis. O Secretário, ex-aluno do estabelecimento, João Henrique de Almeida Sousa, entendeu os graves problemas do educandário, deliberou enfrentá-los com a ajuda de dedicados e competentes auxiliares, a fim de que se recuperasse, nos aspectos físico, pedagógico e administrativo, o querido patrimônio de muitas gerações.


A. Tito Filho, 05/09/1989, Jornal O Dia

LICEU PIAUIENSE - IV

No Liceu Piauiense, foram notáveis pelo saber e pelo severo cumprimento de suas obrigações os saudosos mestres, acatados, e que deixaram exemplos de grande dedicação ao ensino e aos discípulos. João José Pinheiro, Davi Moreira Caldas, Polidoro César Burlamaqui, Simplício Coelho de Resende, José Pereira Lopes, Arquelau de Sousa Mendes, Antonino Freire da Silva, Abdias da Costa Neves, Miguel de Paiva Rosa, Antônio Ribeiro Gonçalves, Candido Gil Castelo Branco, Adolfo Santana, Nogueira Tapety, Higino Cunha, Cristino Castelo Branco, Martins Napoleão, Benjamin Baptista, Leopoldo Cunha, Anísio Britto, Mário Baptista, Júlio Antonio Martins Vieira, Álvaro Ferreira, João Borges de Alcobaça, Álvaro Freire, Antilho Ribeiro Soares, Raimundo de Area Leão, Bonifácio de Carvalho, Raimundo de Brito Melo, José Joaquim de Morais Avelino, Celestino Filho, Clemente Fortes, Darcy Araújo, Leônidas Melo, Demerval Lobão Veras, Edgar Tito, Edgar Nogueira, Fernando Lopes Sobrinho, Fernando Marques, Gonçalo Cavalcanti, Heli Castelo Branco, Heráclito de Sousa, João Antonio Leitão, João Soares, Joaquim Nonato Gomes (padre), Joca Vieira, José Amável, Lourival Parente, Antonio Maria Madeira, Moisés Santos (padre), Odilo Ramos, Petrarca Sá, Pires de Castro, Raimundo Portela, Sotero Vaz da Silveira, Agripino Oliveira, Alcides Lebre, Amália Pinheiro, Ana Bugyja Britto, Cláudio Ferreira, Francisco César de Araújo, Miguel Borges, Otávio Falcão, Raldir Bastos, Robert de Carvalho, Zaul Pedreira (monsenhor), Ofélio Leitão, Odilon Nunes e outros que a memória não guardou. Os citados, na sua quase totalidade, cursaram a tradicional casa de ensino e nela prestaram os exames necessários ao ingresso em escolas superiores. Também honraram outros setores das atividades sociais: foram magistrados, políticos, farmacêuticos, advogados, escritores, médicos, militares, religiosos, engenheiros, odontólogos, químicos, comerciantes.

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Ilustrados cidadãos das novas gerações sentaram-se nos bancos escolares do tradicional educandário e hoje desempenham funções destacadas em Teresina e várias cidades brasileiras, nos mais variados setores da vida pública e das atividades profissionais, honrando as tradições espirituais do colégio em que passaram os melhores anos da adolescência e guardaram os princípios da ordem e da consciência bem formada.

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Em Oeiras como em Teresina, nos tempos imperiais, o Liceu prestou poucos serviços ao ensino e ao processo educacional piauiense. Reduzidíssima a matricula, pois se verificava fraco interesse pelos estudos de humanidades. Estavam distantes as escolas de humanidades. Estavam distantes as escolas superiores. Antes da República e ainda alguns anos depois, no estabelecimento se faziam os exames preparatórios para ingresso nas faculdades de direito, de medicina e de engenharia. Os candidatos sempre provinham de importantes figuras da política e de comércio e de famílias abastadas.


A. Tito Filho, 03/09/1989, Jornal O Dia

sábado, 9 de julho de 2011

LICEU PIAUIENSE - III

Gustavo Capanema, nos tempos ditatoriais, mandou adotar nova reforma: quatro anos de curso ginasial e três do curso científico ou clássico. Vigora nos dias que correm o ensino de 1º grau, que primarizou o ginásio, e os cursos profissionalizantes de 2º grau: reforma Jarbas Passarinho, de 1971.

Mudou-se a denominação Liceu Piauiense no tempo do ministro Gustavo Capanema. Os estabelecimentos que ministrassem ensino ginasial se denominavam ginásio e os que ministrassem os dois cursos - ginasial e científico ou clássico, colégio. Chamou-se, pois, Colégio Estadual do Piauí, modificando-se o nome como homenagem ao fundador. Colégio Estadual do Zacarias de Góis.

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O interventor federal Landri Sales Gonçalves determinou a construção do edifício-sede do Liceu Piauiense, de acordo com o projeto do engenheiro Luís Mendes Ribeiro Gonçalves. Sucedeu-o o governador Leônidas de Castro Melo, que prosseguiu as obras e inaugurou o majestoso prédio como parte das solenidades comemorativas do primeiro aniversário de sua administração: 3.5.1936. Discursaram o diretor João Pinheiro, os liceístas Carlos Castelo Branco, Ivone Bandeira, José Newton de Freitas, Alencar Vieira, Virmar Soares e o estudante de Direito Benjamin do Rego Monteiro Neto. Verificou-se desfile cívico entusiástico.

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Na década de 50, por virtude da população escolar e da procura do ensino público, improvisaram-se salas de aula, com o aproveitamento de gabinetes e outras dependências destinadas a serviços diversos. Havia necessidade de ampliação do estabelecimento, o que se verificou nas diretorias dos professores Arimathéa Tito Filho (1954-1959), que fez aumentos do lado da rua Simplício Mendes e construiu as quadras desportivas: e Lisandro Tito de Oliveira (1962-1970) com novas salas do lado da rua Barroso.

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Mestres que muito se distinguiram e que continuam a ilustrar a vida piauiense noutras atividades podem citar-se James Azevedo, Lisandro Tito de Oliveira, Pantaleão Carvalho, Joffre Castelo Branco, Luís Nódgi Nogueira, Arimathéa Tito Filho, Francisco Barreto Soares Cordeiro, José Eduardo Pereira, Nelson Sobreira, Viveiros Filho, Delfina Boavista, Helena de Greslan, O. G. Rego de Carvalho, Valdemar Sandes, Manoel Paulo Nunes, Luís Lapa, Bernardo Lopes de Sousa, Acrísio Torres de Araújo, João Gabriel Baptista, Clidenor Freitas Santos, Wilson Brandão, Cunha e Silva, Camilo Filho, Joaquim Chaves (monsenhor), Raimundo Santana, Celso Barros Coelho - além de outros do conceituado Liceu de alguns anos passados.


A. Tito Filho, 02/09/1989, Jornal O Dia

sexta-feira, 8 de julho de 2011

LICEU PIAUIENSE - II

A restauração do Liceu Piauiense verificou-se pela lei 559, de 9.10.1867.

Escrevendo sobre a instrução secundária de Teresina, no período de 1852 a 1872, escreveu o piedoso monsenhor Joaquim chaves: "Até o ano de 1872 o ensino secundário em Teresina não compensou, absolutamente, os esforços de alguns abnegados que por ele se interessaram, vivamente, nem as somas, em dinheiro, que a Província gastou para mantê-lo em funcionamento".

E acrescenta:

"O Liceu, sempre em crise, nunca teve pouso certo, nem freqüência regular, até que foi extinto pela resolução nº 511 de 1 de agosto de 1861".

O Liceu Piauiense funcionou em vários locais. Ainda em Oeiras os professores ensinavam na própria casa de residência. José Antônio Saraiva, ano de 1850, sediou-o em casa alugada. "Pode-se dizer que o Liceu existia apenas na legislação e que só se sabia da existência quando seus empregados iam receber os vencimentos".

Fundada a nova capital, o Liceu permaneceu em Oeiras, por algum tempo. E quando se instalou em Teresina, salienta Odilon Nunes, continua a sua débil vida.

O presidente Luís Carlos Paiva Teixeira permitiu que as aulas se dessem nas casas dos professores. Funcionou em salas laterais do Palácio do Governo, na antiga praça da Constituição, hoje Deodoro. Consta que teve sede na rua da Glória (Lisandro Nogueira) e no local onde se constituiu, em 1938, a Casa de Anísio Brito. Teve como sede o fórum, local hoje o Luxor Hotel. Daí passou a ocupar o Grupo Escolar "Abdias Neves", que abrigou depois a Faculdade de Direito e hoje acolhe a Biblioteca Cromwell de Carvalho.

Do ano em que foi restaurado até os últimos dias da Monarquia, nunca menos de 12 leis lhe fizeram alterações. Com a República equiparou-se ao Ginásio Nacional, depois denominado Colégio Pedro II. Houve diversas reformas no ensino secundário, a partir do novo regime: as de Benjamin Constant, de João Barbalho, de Epitácio Pessoa, de Esmeraldino Bandeira, de Tavres de Lima e a Rivadávia Correia, em 1915, que criou o curso ginasial de cinco anos. Finalmente, a de Francisco Campos.


A. Tito Filho, 01/09/1989, Jornal O Dia