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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

GREVE E EDUCAÇÃO

Até poucos dias atrás o país viveu a rotina das greves, finalmente encerradas por algum tempo, pelo menos no período que separa os brasileiros das eleições presidenciais. Persistentes foram os professores, sobretudo em são Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Piauí, em movimentos acintosos contra a educação. Neste país insensato suspenderam-se atividades escolares contra o direito de adolescentes e jovens, privados dos estudos por supostas prerrogativas constitucionais, num país de escolas falidas no âmbito público e de colégios comerciais, subvencionados pelo governo, na área privada.  Sempre condenamos essas greves baseadas em conflitos salariais e conflitos políticos, promovidas em prejuízo de estudantes já de si frustrados por razões diversas e mais do que tudo pelo ensino decepcionante. Não deixamos de condenar a triste situação do magistério despreparado desta época conturbada, professores improvisados, sem progresso intelectual de espécie alguma, sem cultura humanística, de linguagem trôpega e incorreta e que levam às salas de aulas paixões partidárias e angústias íntimas, nascidas da decadência da profissão. Limitam-se a pregar rebeldias e a passar deveres de casa para um auditório de vitimas indefesas. Ganham migalhas os professores do momento, embora ensinem mal e deseduquem melhor. O status social dos mestres antigos desapareceu, relegando-se os atuais as mais das vezes ao desprezo ou à desconsideração generalizada. A profissão não atrai os estudiosos como antigamente. Dela participam pessoas que deveriam exercer outras profissões. O governo, de sua vez, considera o ensino problema aborrecido e enervante. Nada pratica para dar-lhe rumos seguros e recuperá-lo. Dá preferência aos absurdos gastos com propaganda pessoal, obras sunturais, mordomias condenáveis. Os professores grevistas ofereceram a sociedade espetáculos deprimentes. A greve deve ser um instituto sério e com o qual os trabalhadores decretam a ausência ao trabalho desde que faleçam os processos legítimos para o atendimento de reinvidicações justas. Mas acontece no Brasil, como recentemente se verificou em São Paulo e Rio de Janeiro, é que os professores grevistas, em grandes ajuntamentos e desfiles pelas ruas de trânsito intenso, impediram que os veículos servissem a população, prejudicada assim nos seus direitos fundamentais. No Piauí, os professores públicos tentaram prejudicar de modo condenável que uma festa cívica, com a presença do governador do Estado, decorresse normalmente - justamente a festa de reinauguração do colégio querido da comunidade, o velho Liceu Piauiense, obrigando-se a polícia a dispersar os manifestantes, que deveriam dar o exemplo de elevada compostura cívica. As greves, quando justas, amparadas pela lei, não necessitam das gritarias, das passeatas e dos xingamentos inúteis e que desacreditam os promotores. Elas devem ser sérias e sobretudo educadas e decentes, sobremodo quando partem de professores. Greves que reclamam pancadaria, ofensas, pedradas são aquelas que se repudiam por si mesmas e nada significam senão o desenfreio de paixões partidárias ou simplesmente políticas. Finalmente os grevistas em são Paulo, no Rio, e outros centros populacionais, em Teresina - voltaram ao trabalho. Quase nada obtiveram, ou tiveram o formidável e criminoso lucro de prejudicar adolescentes e moças sem aulas durante o primeiro período letivo de 1989. Será que os autores de tanto prejuízo a inocentes se sentem confortados dessas atitudes que só conduzem ao desprestígio da classe? Enfim, a nação brasileira se encontra tão desacreditada que até os professores relegam a plano inferior o material humano digno de afeto e carinho - os que têm necessidade de educar-se para a vida.


A. Tito Filho, 29/08/1989, Jornal O Dia

CRENÇA

Nos Estados Unidos da América do Norte, vigorou durante largo tempo, a crença, a partir do século XIX, de que os presidentes da República, eleitos nos anos terminados em ZERO, de vinte em vinte anos, morreriam no poder. Como se originou o fato? Naturalmente da observação de indivíduos curiosos, que nasceram com a sina de anotar coincidências.

Vejamos. Em 1840, foi eleito para a presidência o cidadão chamado HARRISON. Andava adoentado. Assumiu o alto cargo e nele faleceu um mês depois. Em 1860, Lincoln ganhou a eleição. Quando começou um segundo período de governo assassinaram-no num teatro de Washington. Nas eleições de 1880, GARFIELD, vitorioso, assumiu a presidência e foi morto no exercício das funções. Três vezes deu-se a circunstância com relação aos eleitos: 1840, 1860 e 1880. Agora deveria haver morte presidencial com o que se elegesse no principio do novo século, 1900. Pois a história se repetiu. MACKINLEY ganhou o prélio eleitoral de 1896, dirigiu o país durante um quadriênio. Reelegeu-se em 1900, ocupou segunda vez a Casa Branca, mas bala assassina lhe tirou a vida. Em 1920, HARDING conquistou o governo. Morreu de morte morrida nos aposentos presidenciais. E Franklin Roosevelt quebraria o preconceito? Vitorioso em quatro eleições: 1932, 1936, 1940 e 1944. Notem o ano fatídico da crença popular: 1940. Roosevelt morreu no poder, em 1945. KENNEDY foi o vitorioso nas eleições de 1960. Morreu de morte matada, em Dallas. Observem: os presidentes, eleitos nos anos terminados em ZERO, de vinte em vinte anos, haveriam de despedir-se da vida no poder, como titulares do cargo presidencial: 1840, 1860, 1880, 1900, 1920, 1940 e 1960.

REAGAN, eleito a primeira vez em 1980, enganou a morte. Embora baleado e várias vezes operado, quebrou a corrente. Não deu certo. O homem deixou a Casa Branca em posição vertical, utilizando os próprios pés.


A. Tito Filho, 31/01/1989, Jornal O Dia

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

SITUAÇÃO NACIONAL

A nação brasileira parece que já aceita a rotina de aflições sem conta. Martiriza-se a fome de milhões, uma fome endêmica ou epidêmica, a doença concede às populações subnutridas vida curta e plena de sofrimentos, a habitação desumana constitui o cenário em que se abrigam as famílias de assalariados. A violência faz parte da convivência nas pequenas, nas médias como nas grandes cidades. Multiplicam-se os assaltos e os seqüestros. Mata-se por motivo ignóbil e até sem motivo algum. Vigora a lei da truculência. Diariamente os preços das utilidades disparam, sem que escapem os produtos oficiais vendidos pelo governo, como no caso dos combustíveis. Após a Constituição de 1988, tornou-se permanente a greve, sobretudo de professores de todos os graus, uma greve contra a educação e o saber e mais ainda contra os direitos sagrados de adolescentes e jovens, justificada porém pelos péssimos salários dos docentes que, mal pagos e endividados, perdem inteiramente o status social, que os fazia, nos dias passados merecedores do reconhecimento da coletividade. O ensino público nas áreas federal, estadual e municipal perdeu a credibilidade. Milhares de funcionários públicos da ativa não trabalham e comparecem nas repartições nos dias de pagamentos. São INVÁLIDOS por falta de ocupação e vivem pensionistas oficiais. Os famosos educandários particulares representam indústria de alta renda para os felizardos proprietários que ainda recebem ajuda governamental. Os poderes republicanos discutem, debatem e decidem sobre o salário mínimo das gentes nacionais, uma remuneração ínfima, raquítica, que mal cobre as despesas de alimentação, enquanto se pagam milhões mensais a um membro do legislativo. Perdeu-se a vergonha. Os mais tristes gestos contra a dignidade nada significam para os que transgridem as leis, pois a sociedade moderna considera heróis os que sabem enriquecer depressa, por conta de golpes de esperteza. Os bandidos ganham o noticiário dos jornais, dos rádios e das televisões. Os povos conhecem mais ESCADINHA do que Oswaldo Cruz. Os bicheiros têm papel saliente nas novelas das tevês e ganham o prêmio maior da conquista das JOCASTAS tipo Vera Fischer. As cenas do despudoramento ganham as telas caseiras. Sepultou-se a nudez como sustento de publicidade malsã e de convocação dos sentidos. Vivem os ricos de extravagâncias, desperdícios e futilidades, gastando a rodo os dinheiros embolsados e adquiridos de maneira pouco recomendável e sob condenação generalizada. Mulheres e homens milionários passam as noites em solene uiscadas. Gastam dezenas de salários mínimos nas festas e nos casamentos dos filhos sem trabalho. Vestem-se de trajes luxuosos, dissipam fortunas em episódios sem sentido. Assim vem sendo a pátria amada, ingrata com os humildes e pequenos, que só encontram conforto nas criminosas ações de roubo e vingança. O menosprezo dos bens culturais, porém, completa o quadro assustador em que mergulha a nação. Aboliu-se a leitura nos hábitos familiares e educacionais. que se lê no Brasil? Nada. Apenas uma elite conhecida ainda participa dos ensinamentos dos livros. Preponderam insultuosos esquecimento dos melhores documentos da literatura nacional. Ninguém conhece mais os nossos grandes escritores. As solenidades cívicas desapareceram. Ainda se realizam alguns lançamentos de obras entre amigos íntimos. A cultura corresponde a notável pasmaceira generalizada. As televisões fabricam as mais das vezes asneiras enlatadas. Centenas de cantores se exibem, em cantigas de músicas e letras inexpressivas. não se ouvem mais os grandes momentos da música. A arte dramática vale pornografia. A nação debilita-se. Estertora. Extinguem-se os seus mais sagrados caminhos espirituais. Quando uma nação se alimenta de futilidades e despreza a sua língua, a sua história, o seu patrimônio moral - e vegeta deseducada e amorfa - está doente, agoniza sem salvação.


A. Tito Filho, 26/06/1989, Jornal O Dia

POLÍCIA - III

Sinceramente que estou desconhecendo o meu Brasil. Era bom o Brasil. Tive uma infância alegre, risonha, banhando nas boas águas do Marataoã, no pedaço de território piauiense chamado Barras. A gente brincava de bola de meia, no beco de casa, e manhãzinha colhia creoli e coroa-de-frade pelas margens da riacharia. Minha adolescência se deu em Teresina, nos estudos, e no velho Marruás, nas férias. A mocidade se dividiu por Teresina, Fortaleza, Rio de Janeiro. Ditosos tempos. Namoros acolchoados na penumbra dos cinemas. Cinco anos na terra carioca, de noite eu gostava dos cabarés da Lapa e dos bares chiques de Copacabana. Por essas andanças e moradias nunca ouvi falar de assalto. Havia gatunagem. Crime só de vingança por causa de chifres, ou em bebedeiras nas biroscas das favelas. Em quase tudo, ordem, disciplina, camaradagem, gosto de viver. O Brasil atravessou ditadura e descambou nessa tal democracia que nunca foi ao menos imitação da dita cuja. Democracia supõe respeito, harmonia social, ausência de fome e de miséria, e da infame injustiça contra os pequenos. Não pode haver regime democrático onde impera o triste espetáculo dos marajás, das mulheres dos marajás, filhas e netos dos marajás, ao lado das esmolas pagas a milhares de pobres diabos, os barnabés ou funcionários públicos mendigos, ou operários obrigados a baixíssimo salário mínimo, cujo valor não permite a aquisição de meio quilo de carne por dia.

Alberto Silva sempre se mostrou sensível aos mais puros sentimentos de solidariedade humana. Não sou político nem sei bajular quem quer que seja. De longe conheço o atual governador do Piauí, homem leal a Deus e às criaturas criadas por Deus. E digo ao governante, apelando para a sua magistratura, que não pode o policial civil do Estado ganhar, senão com fome, os magríssimos vencimentos que vem recebendo. Quanto ganha um delegado? Menos de sessenta cruzados novos mensais ao que parece - justamente a autoridade sobre cujos ombros pesam a responsabilidade da segurança coletiva.

O Delegado Antônio de Melo Lima defende uma causa justa, decente, digna. Merece apoio da coletividade.


A. Tito Filho, 29/04/1989, Jornal O Dia

POLÍCIA - II

Nos princípios da década de 30, os Estados Unidos viveram momentos emocionantes. John Dillinger inaugurou os tempos sangrentos de assaltos a bancos. Duas vezes apenas a polícia norte-americana teve sorte na luta contra o homem que a imprensa considerou o INIMIGO PÚBLICO Nº 1 do país. Uma ocasião conseguiu prendê-lo, mas o célebre bandido fugiu da cadeia. Noutra a oportunidade, traído por conhecida meretriz, Dillinger foi varado a balas, quando saía disfarçado de um cinema em Nova Iorque. qual o segredo desse famoso gangster, temível assaltador de bancos, comandante de um grupo de assassinos frios e useiros em tropelias criminosas? Simples. Dillinger e os seus liderados dispunham de armas mais poderosas do que as usadas pelos homens da lei. Aconteceu por esta forma: o aparelho policial sempre esteve sem os instrumentos necessários ao combate do crime e dos que vivem da sua prática.

À deficiência de veículos, de armas, de laboratórios, acrescente-se de alguns anos para cá a péssima remuneração dos agentes policiais.

Veja-se esta hoje sofrida e desconjuntada Teresina, uma cidade que Saraiva edificou entre a poesia e a tranqüilidade de dois rios, agora o pasto dileto das ambições imobiliárias para o sustento do desperdício do soçaite, nas noites regadas a uísque e corpos femininos.

Teresina progrediu muito. Possui espigões, pistoleiros, crimes misteriosos, pivetes, motéis de alta rotatividade, restaurantes de luxuria desbragada, veadagem encantadora, sapatões de mãozinhas dadas nos calçadões sem sentido, mas a polícia está incapacitada de vigiar os locais em que desfilam as tristes personagens das noites de luxúria e de drogas. Se aos desprotegidos policiais civis sobram o risco e o receio das balas dos marginais, falta-lhes até mesmo o conforto de poder ao menos, humildemente, sustentar a família.

A luta do delegado Antônio de Melo Lima, presidente da Associação de Policiais Civis, merece apoio. E reclama de Alberto Silva sensibilidade e decisão. Os policiais ganham miséria - eis a verdade.


A. Tito Filho, 28/04/1989, Jornal O Dia

terça-feira, 27 de setembro de 2011

POLÍCIA - I

Fui delegado de polícia faz muito tempo no governo Rocha Furtado. Delegado de Trânsito e Costumes. Era de tomar conta do trânsito e dos maus costumes, numa época em que trafegavam poucos automóveis e o transporte coletivo estava começando, nuns ônibus velhos escangalhados. Mas no tocante a costumes, o trabalho se mostrava um pouco desenvolvido. Minha delegacia instaurava processos pelo chamado defloramento de garotas, fiscalizava forrós, cabarés, resolvia casos de vizinhança, enfim instaurava os inquéritos respectivos, quando necessário. Nesse tempo as garotas já estavam sapecas, na classe alta, na classe média, como na classe chamada dos pobres. Nesta última havia constante desvirginamento, ou quebra de cabaço, da forma que se dizia na linguagem de esquina. Participei como delegado de exame nas três classes sociais, no todo 73 meninas, durante um ano, se deitaram na cama da delegacia, abriram as coxas e o médico Hugo Bastos olhava o negócio e atestava os rompimentos. Eu e o escrivão Matias Melo Filho assistíamos ao exame debaixo de muita perturbação de sentidos. Era bom, delicioso ver a cousa bem de perto. De modo geral as defloradas, no correr do inquérito, passavam pelo nosso crivo, meu e de Matias, que nós não éramos deste mundo. Não sei se Hugo Bastos também se metia na aventura de amor sem perigo de polícia. Ainda hoje me encontro com caboclas de cabelo branco e que amei em casebres de palha. Eu e o outro perito na mesma safadeza, meu saudoso mestre Matias Melo Filho, que Deus o guarde na sua glória e sabedoria.

Tempo bom o de delegado. Agora recebi a visita de um colega inteligente, dedicado à polícia, presidente de conceituada associação civil de policiais, o delegado Antônio de Melo Lima. Muito conversamos. A polícia do meu tempo tinha folga, a cidade gozava de paz.

Inexistia o progresso moderno do pistoleiro, da vingança dos assassinatos diários.

Antônio de Melo Lima me contou sobre os vencimentos da polícia do Piauí para enfrentar bandidos. Uma lástima, como se verá do próximo assunto.


A. Tito Filho, 27/04/1989, Jornal O Dia

GIÓRGIA

A 22 de abril, sábado, Giórgia da Silva Matos, filha do casal José Moacir Matos e Célia Matos, completou 15 anos de idade. Os pais felizes ofereceram recepção aos amigos no hotel Rio Poti, uma convivência alegre, contagiante, simples, de organização perfeita. Tudo bonito, encantador. À mimosa menina-moça dirigi esta mensagem:

"Deixou você, Giórgia, a infância, a aurora da vida humana, idade do contentamento, em que predominaram o brinquedo e a fantasia, e penetrou na adolescência, a fase da imaginação e dos sentimentos fraternos. É o tempo em que encontramos, como você, a poesia das cousas e dos cenários revelando-se às nossas almas e de tudo fazemos objeto de ternura. A adolescência verdadeira, compreendida pelos pais, corresponde à sua, Giórgia, em que predomina a beleza poética do que nos cerca como o gosto da música, da viagem, da leitura e da natureza e dadivosa.

Depois da adolescência, começa a outra idade, a mocidade, plena de paixões - as imensas paixões do amor, do poder e da liberdade. Início das idéias e das dúvidas.

Hoje, Giórgia, encontra-se você na época da transição. Ainda não terminou a sua adolescência e surgem os primeiros caminhos da segunda fase da existência. Você ainda está adolescente aguardando a idade mais feliz da vida, a idade moça, que começa a surgir na sua personalidade.

Não renegue a infância nem a adolescência de que você está a despedir-se, mas faça de ambas a segurança da mocidade, porque as idades da vida, nas suas características positivas e negativas, se interpenetram e se auxiliam.

Lembro-me dos brincos da minha infância alegre na tranqüila cidade de Barras, quando eu atirava à superfície tranqüila das águas do rio Marataoan a pedrinha da infantilidade e via-a provocar círculos concêntricos que se desdobravam até que se perdiam na distância. Faça, Giórgia, que neste momento lhe atinja ao coração os gestos de sacrifício de suas país para torná-la feliz, e que eles, os gestos, se desdobrem na gratidão permanente com que deve retribuir-lhes sempre na majestade do seu amor de filha. Todas as idades se compõem também de virtudes - e estas devem permanecer sempre no seu ideal de doação da adolescência que ainda está em você e da mulher que vem surgindo".


A. Tito Filho, 26/04/1989, Jornal O Dia  

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

COMENTÁRIO

Por mais otimista que o brasileiro seja, ou pretenda ser, não pode desconhecer que o país se encontra em postura pré-agônica. Os problemas multiplicam-se dia por dia. Campeia a violência. Vigora o assalto. Mata-se por vingança, por ambições contrariadas, ou na defesa de princípios ilegítimos. Dinheiros sem conta se gastam na aquisição de tóxicos. A cocaína tem circulação internacional. Os sanatórios se povoam de jovens viciadas, vítimas de banditismo em todos os países. Faliu a escola pública, substituída pelos balcões comerciais dos estabelecimentos particulares. Os professores perderam o status social. Falta-lhes preparo e equilíbrio. Têm nervos à flor da pele por virtude das dificuldades financeiras. Sepultam-se infelizes estudantes, decepcionados, desiludidos, de futuro incerto. As universidades fabricam doutores sem que se lhes conceda mercado de trabalho. O homem sem terra e sem teto do interior busca a cidade grande e acrescenta mais dificuldades aos centros urbanos, na constituição da estupidez das megalópoles. O trânsito apavora, suprime vidas, enlouquece motoristas e pedestres. As moradias desconfortáveis, espremidas, constitutivas de conjuntos habitacionais sem higiene, são fonte permanente de promiscuidade. Meninos suburbanos se alimentam de barro das ruas, à procura de suprir deficiências orgânicas. Ignorância generalizada. Analfabetismo envergonhante. Penitenciárias entupidas de toda espécie de criminosos e contraventores, em cubículos miseráveis, famintos, sem qualquer assistência espiritual, presos revoltados e sempre dispostos à reincidência. Fome e desemprego. Menores sem lar, sem afeto, escorraçados, educados para a delinqüência. Meninas adolescentes entregues à concupiscência de amorias, em bordéus de luxo, alunas de um sistema de televisão nocivo à dignidade de espécie humana, em que as TIETAS, de vergonhoso despudor, desvirginam os sobrinhos seminaristas, episódio revoltante, com que o Brasil se diverte, talvez, digno do espetáculo de sexo e luxúria. a esperteza, no país, tornou-se sinônimo de heroísmo. Quanto mais se rouba, mais se colhem aplausos. Triunfam os que enriquecem à custa de golpes bem dados. Os jornais acusam e ninguém se defende. Os ladrões de colarinho branco gozam de privilégios da impunidade. A criminosa especulação imobiliária aleija cidades e não tem freios. À sua custa nascem, crescem e se desenvolvem nababescas personalidades. As leis quase sempre têm endereço certo, assentam-se sobre irrecusáveis casuísmos. Não se respeita ao menos o aviltante salário mínimo dos que se empregam subordinados a regimes trabalhista, sonegado oficialmente e por profissionais liberais. Descumprem-se deveres legítimos. Professa-se a filosofia da malandragem. País do carnaval, da licenciosidade, da falta de discernimento. Violam-se direitos dos humildes. As filas nas ruas, em busca dos serviços públicos assistenciais, envergonham e humilham. Tornou-se vitoriosa a contravenção da jogatina. O próprio governo explora loterias, lotos, lotecas, senas, e até governantes já foram denunciados como sócios de jogo do bicho. Anuncia-se que algumas contribuições estaduais permitem o funcionamento dos cassinos, nos quais tudo se perde, inclusive a honra. Qual o setor deste país que funciona no cumprimento das suas finalidades? Talvez exista algum, embora seja difícil registrá-lo. Que dizer dos banqueiros privados e dos oficiais? Os juros andam em cinqüenta por cento ao mês, isto é, a usura atinge o sem-fim. E a inflação? E a monstruosa burocracia, a massa imensa com que o país, os estados e os municípios e as estatais gastam somas incaláveis? Num Brasil assim, só os ricos, os milionários, os empanzinados de lucros absurdos e desonestos, o soçaite fútil e dissipador, que afronta a pobreza de quase todos - só os ricos sobrevivem e gozam a vida, embora inseguros da própria inutilidade.


A. Tito Filho, 25/10/1989, Jornal O Dia

domingo, 25 de setembro de 2011

NOVA CIVILIZAÇÃO

Quando cheguei ao rio, para estudos, nos anos 40, havia na cidade UM edifício alto, de vinte e dois andares. Chamava-se A NOITE e nele funcionavam duas empresas nacionais, responsáveis por um jornal, uma revista e uma rádio. O espigão constituía atração da antiga cidade maravilhosa. Nos dias de domingo, muitas pessoas faziam visitação ao terraço do prédio, nas alturas, para contemplação da paisagem. Pagava-se pequena taxa de ingresso. Na avenida Rio Branco viam-se edifício de três, quatro, seis andares, de feitio antigo. Célebre, o Palace Hotel, que vinha da primeira República, importante, hospedagem de políticos, sobretudo. Em Copacabana, de seis andares, o internacional Palace, hospedagem famosa de reis, artistas e milionários. Ruas e praças do aristocrático bairro eram mansões elegantes e confortáveis. A praia encantadora tinha chalés e mais chalés bonitos, habitações familiares de primeira classe, luxentas, convidativas. No máximo de dois pavimentos, o térreo e o superior. Não se via um só edifício de APARTAMENTO, em lugar algum da antiga capital do Brasil. Para a vitória dos rebeldes em 1930, com Getúlio Vargas à frente do movimento tenentista, vendeu-se o Brasil aos Estados Unidos. Iniciava-se de pouquinho, a civilização dos enlatados, dos salgadinhos, da roupa feita, bem assim dos APARTAMENTOS; nos quais nascem as crianças já prisioneiras dos pequenos espaços para o engatinhamento e crescem de bundinhas feridas nas quinas dos móveis espremidos em salas reduzidas. Civilização do APARTAMENTO, ou APERTAMENTO, como lhe chamou humorista nacional. Quem não se lembra da marchinha publicitária dos remados fins da década de 30? Era assim:

   Se você fosse sincera,
   Ò... Ò... Ò... Ò... Aurora,
   Veja só que bom que era
   Ò... Ò... Ò... Ò... Aurora...
   Um lindo apartamento,
Com porteiro e elevador
E ar refrigerado para os dias de calor,
   Madame antes do nome,
   Você teria agora,
Ò... Ò... Ò... Ò... Aurora...

E em Teresina? Que dizer dos nossos apartamentos? Chegaremos cá, na próxima lição.

A. Tito Filho, 26/09/1989, Jornal O Dia 

sábado, 24 de setembro de 2011

NATAL

Em Teresina, como em quase todas as cidades brasileiras, o Natal constituía a mais linda festa do ano, significativa por excelência, sobretudo na comunhão espiritual da comunidade. Alegria nos corações. A graça e a beleza artística dos presépios nos templos religiosos - e o Menino Deus vestidinho em camisa muito alva de seda ou de cambraia. A meia-noite a missa do galo, igreja repleta de gente de variada categoria social. Os sinos repicavam mensagens de amor para que todos se fizessem mais irmãos. Depois do ofício divino, no lar de rico aconchego afetivo, a família se entregava, unida em carinho, a ceia natalina, composta do peru morto na véspera e assado nos velhos fornos de barro, com o braseiro bem vivo e ardente. A farofa da ave era uma gostosura. Comiam-se outras iguarias saborosas, preparadas por cozinheiras de doutos conhecimentos nesses assuntos culinários. Não se desprezavam o bom vinho, nem a doçaria de dar água na boca.

Os tempos correram na sua marcha inexorável. A produção industrial aumentou de modo incontrolável. Houve necessidade de vender e vender sempre mais. Inventou-se o rádio. Criou-se a televisão. A propaganda intensa dentro dos lares transformou o Natal num período de angústia generalizada, aperreante, aflitivo, de ânsias para os assalariados na consecução do dinheiro destinado a compra do presente. Esqueceram-se as lições de humildade do Menino da manjedoura de Belém. Cristo passou a objeto das ambições da indústria e do comércio. Avilta-se a beleza do episódio do nascimento. O silêncio da gruta se desrespeita com a barulheira infernal dos anunciantes e dos camelôs de enjoativa palração.


A. Tito Filho, 25/01/1989, Jornal O Dia

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

ESTUPIDEZ

Faz poucos dias houve jogo de futebol internacional em Teresina. Brasileiros e paraguaios disputaram o domínio da bola, coma vitória dos primeiros. Tive muito desejo de ir à festa cívica, mas temi a multidão. Não posso desamar o futebol, pois brinquei nos becos de minha cidadezinha de Barras, com a molecada de meu tope, de bola de meia, e nesse tempo, entre nós, vigoravam os empurrões e as rasteiras. Era bom. Depois me acostumei a presenciar bonitas pugnas futebolísticas em Fortaleza e Rio de Janeiro. Uma beleza. Muito entusiasmo na alma popular. Embates vibrantes. Torcidas entusiasmadas.

Passaram os tempos ditosos. Futebol no mundo de hoje supõe paixão desenfreada, sopapos, bofetões, tiros e até morte. De vez em quando as tragédias entristecem as comunidades. Impera a paixão, que conduz às atitudes incontroláveis. Liquidou-se o espírito de companheirismo. Cada qual enxerga no vizinho o inimigo. Talvez a causa esteja na solidão do brasileiro, nas posturas de protesto contra a angústia universal. Por toda parte, agressividade e irracionalidade.

Na apreciação de um livro desse incomum cidadão de espírito coletivo chamado Carlos Said, escrevi que Érico Veríssimo observa curiosa predileção do mexicano de rua pelos fogos de artifício, principalmente pelo foguete e pelo busca-pé, e tanto um como o outro tem dois predicados que o mexicano admira do funda da alma: são explosivos e chispantes. No futebol do Brasil o que as vezes dá impressão de alegria, constitui fúria, o que parece contentamento, corresponde a violência. Futebol no Brasil semelha revolução, explosão, válvula de escape para a violência reprimida, uma atitude bovárica irreversível, um protesto da angústia, uma fuga da realidade, uma forma de evasão.

Faz poucos dias, na Inglaterra, torcedores que não puderam ter ingresso num jogo, em virtude de lotação esgotada, tomados de paixão, invadiram as dependências do estádio e deu-se a tragédia estúpida, sufocando-se uns duzentos. Verdadeiro crime da bestialidade, como os mostrados por Zola, nas multidões compostas de neuróticos, anormais, inoculadores do veneno da loucura no corpo coletivo. Verdadeiros recalcados de Freud.

Não fui ao jogo Brasil-Paraguai. Não confio nas multidões, que as vezes se tornam instintivas e bestiais.


A. Tito Filho, 25/04/1989, Jornal O Dia

SÃO PEDRO - II

E as grávidas? São Pedro guarda o título de patrono das grávidas, às quais concede a esperança do bom parto, do parto feliz, e a elas ainda tem o dom de esclarecer o sexo do nascituro. Consagram as gestantes ao excelso patrono orações de muito fervor, e rezas de variada concepção, já incorporadas, ao patrimônio folclórico dos povos, ricas de intensidade religiosa, extraordinárias na pureza da fé no santo chaveiro.

Estudiosos dessas manifestações espirituais das comunidades atestam a existência de um ciclo de estórias, de poesias, de crenças envolventes do nome do santo chamado de Jesus - invocações com fundas raízes na alma tradicional, que se repetem séculos fora, que se transformam, que aparecem e reaparecem com variantes, mas nunca morrem, por que as criações anônimas do povo têm força, perpetuem-se, dada a circunstância mesma de que é imortal a sabedoria que brota espontânea e viva da fé dos simples.

Vigora em redor de são Pedro um anedotário de muito espírito - um anedotário que tem origem na inteligência do chaveiro, na sua simplicidade, - a simplicidade que o levava a abdicar da rigidez e severidade dos conselhos e dos julgamentos, e lhe concedia o ar paternal, de suavidade, sem descurar das obrigações do apostolado. Tornaram-se conhecidas as estórias das suas decisões à entrada dos céus - sempre sagaz contra a esperteza dos vigaristas desejosos de penetrar, por subterfúgios, no sagrado recinto. O juiz do ingresso dos bons e da recusa dos maus alcançou popularidade - e de São Pedro se fez o advogado, o melhor advogado da boa ou da má sorte dos que fecham os olhos a este mundo.

A simplicidade de são Pedro, as humildes origens da vida, o trabalho que desempenhava - pescador nos mares da Galiléia, fizeram do porteiro e juiz da entrada celestial um eleito de Deus de grande popularidade, daí por que vive no apreço geral - principalmente na estima dos pobres, dos sem grandeza, contemplados apenas, das riquezas da fé, resignados, mas esperançosos do valimento do prestígio do santo.


A. Tito Filho, 25/07/1989, Jornal O Dia

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

CREMAÇÃO - II

No Brasil, o velório, as vestes do defunto, a palidez cadavérica, tudo isto transmite sensação de pavor aos familiares e aos circunstantes. Dizem que o brasileiro tem a mania de imitar o norte-americano. Imita-o até no mastigamento de goma, marca registrada, o chiclete. Mas imita-o no que não deve, e deixa de imitá-lo no que seja bom. Pois o povo dos Estados Unidos faz idéia diferente da morte. Por toda parte, lá, existem as funeral homes, prédios, antes de mais nada, simpáticos, a que se refere Carlos de Alcântara, que morou na terra do esperto Tio Sam: "O cliente (o morto) é trazido numa Limusine grande, toda fechada, discretamente. Numa sala dos fundos, um especialista, diplomado, auxiliares que de certo já trabalharam em salão de beleza, dão-lhe aspecto apresentável, composto e de longa duração. Em seguida, passam-no para uma sala de estar, confortável, sobriamente ornamentada, onde ele fica descansando por dias, antes da viagem final. Ao lado, num cômodo separado, a família se reúne com os amigos, para contar como foi. Na data marcada, lá vai ele de novo na Limusine, seguida de vários carros particulares, todos de faróis acesos...".

Tem o norte-americano horror às cousas mórbidas, e esse horror o leva a esconder "imagens e idéias que lembrem a morte e a doença".

Leiam o depoimento de Érico Veríssimo: "Os remédios se vende nos drugstores, que são belas lojas onde encontramos artigos de perfumaria, sanduíches, comidas quentes, bebidas em álcool, doces, revistas, jornais... O balcão das drogas está escondido no fundo da casa. Os cemitérios são verdadeiramente parques. Os defuntos são entregues a empresas funerárias, que se encarregam de todas as cerimônias fúnebres. Os amigos do morto comparecem, tomam um coquetel num silêncio alinhador ou numa conversa discreta, e tudo se processa sem alvoroço. Não encontrei durante toda a minha viagem uma única pessoa de luto fechado. Outra cousa curiosa: há cemitérios que fazem anúncios como se fossem teatros, parques de diversão ou artigos de toucador. Na Califórnia existe um cartaz em frente à porta central um letreiro colorido... Encontro na revista, entre os anúncios de cabarés, duas páginas com a fotografia do cemitério-parque".

Melhor queimar ou enterrar o sujeito que entregou o couro às varas?


A. Tito Filho, 24/04/1989, Jornal O Dia

terça-feira, 20 de setembro de 2011

MATERIAL

Recordo que no ano passado, neste canto de página, escrevi que antigamente as mães viviam em casa, amamentando os pequerruchos e, depois, orientando-lhes os estudos. Hoje a mulher vive fora do lar e as crianças, adolescentes e jovens entregues exclusivamente à escola à beira da falência, diferente da escola antiga em que se estudava e se aprendia, sem as exigências de hoje, essas modernices e modernizamentos dos dias correntes. Os estabelecimentos de ensino pertenciam quase todos ao governo, alguns particulares, todos ao governo, alguns particulares, todos de professores famosos, capazes, sérios, respeitados. Mestres que fizeram história e educação.

Acrescentei que quase os estudantes não gastavam com material escolar. A escola tinha dois níveis, o primário e o secundário. Como as mães vivem nas ruas, surgiram o curso maternal, o jardim, a alfabetização, primeiro e segundo grau, tudo de negócios particulares, pois os oficiais oferecem péssimas condições.

As escolas particulares, porém, reclamavam elevados preços de dinheiro e exigências absurdas de vários cadernos, coleções de madeira, hidrocor, figurinhas, resmas de chamex, tesourinhas e tesourões, rolos de papel higiênico, absorventes para as mulheres de idade respectiva, papel de estêncil, lencinhos de papel, toalhas, escova de dente, pasta, sabonete, desodorante, roupa de banho, pincéis, tintas, grampos, massa de modelar, cartolina, papel camurça, papel de seda, isopor, durex, cola, apontadores, colecionadores, álcool, borrachas, copo de alumínio, copos descartáveis, merendeira, novelos de lã, agulhas, giz colorido e mais que seja. Ainda as contribuições para as festocas e para o aniversário do querido diretor.

Pobre país. Infeliz gente. Da relação acima, não constam as dúzias de livros que custam os olhos da cara. Também não figuram os pagamentos mensais e os reajustes, sempre a critério dos inócuos conselhos estaduais de educação, cujos membros, as mais das vezes, tem filhos que estudam de graça.

Aí por fora já existem escolas de 1º e 2º exigindo CAMISINHAS de variado comprimento e diâmetro para os jovens. Ainda bem.


A. Tito Filho, 25/03/1989, Jornal O dia

ÍNDIOS

Nos Estados Unidos foi assim. Viviam os índios na paz das selvas, como donos da terra. Eles a habitaram em primeiro lugar. Eram colhedores. Não trabalhavam. Colhiam os frutos que as árvores lhes davam. Comiam a carne dos animais apresados e o peixe das águas opulentas. Não trabalhavam. Faziam sexo, comiam, dormiam. Aventureiros e colonizadores, em busca de riqueza, expulsaram-nos dos sítios dadivosos. As paisagens e virgens foram conquistadas por homens brancos, fortes e rudes, numa luta feroz, de emboscadas e de surpresas. Os índios odiaram os brancos e responderam com a violência. Incendiavam as casas na calada da noite, matando famílias, homens, mulheres, velhos e crianças. Páginas de sangue, sobretudo no oeste.

No Brasil o branco também, com a força das armas fez a liquidação de nações indígenas, por toda parte. No vasto território piauiense, ao tempo do inicio da colonização e dos currais, inexistia qualquer exemplo de disciplina. Era o pânico. E o vácuo. Dias perigosos. A volúpia mortífera das desgraças do meio. Domingos Afonso Mafrense penetrou o Piauí com os seus troços de gente. Contam que o bandeirante Domingos Jorge Velho fez o mesmo. Ambos colonizaram terras, senhores de sesmos e latifúndios. Apareceram os catequistas. O Piauí torna-se cenário histórico empolgante. A riqueza estava no gado e da rês se aproveitava tudo, a carne, os ossos, o tutano, bofes, cascos, couros, chifres, fezes, até o membro genital enorme. Em tudo o bovino, na panela, no cornimboque, nas liteiras, no gibão, nos arreios, nas portas nos calçados. O Piauí enfrentava problemas angustiantes de tardio povoamento, dificuldades de transporte, sem agricultura e sem escolas. E o problema do índio. Havia necessidade de exterminá-lo. Deu-se a matança perversa. João do Rêgo Castelo Branco liquidava todo tipo de índio: feto, recém-nascido, criança, adolescente, moço, maduro e velho. Fêmeas e machos. As peripécias sangrentas desse exímio degolador ingressaram na história. Cumpria ordens dos conquistadores da terra e cumpria-se sem um pitoco de remorso, alegre sempre. Um dos mais admiráveis genocidas da história, el grande matador, da forma que H. Dobal lhe deu apelido.

No Dia do Índio o Brasil e o Piauí deviam ter vergonha do que fizeram com os irmãos sem destino.


A. Tito Filho, 21/04/1989, Jornal O Dia

MOLECAGEM

Na década de 40, a Caixa Econômica era pobre. Vivia de penhorar jóias e outros objetos, bem assim de empréstimos pequenos e juros baixíssimos pelas quais a gente recebia rendimentos mensais. Tinha o nome de Banco do Povo.

Um dos candidatos à presidência da República, na conformidade de propaganda televisiva, promete liquidar a molecagem vigorante nesse país. Trata-se do deputado Ulysses Guimarães, que está de poucas intenções nas pesquisas de voto. Caso seja eleito, porém, só por milagre varrerá do Brasil a molequeira em que a Nação cada dia mais se afunda.

A Caixa Econômica é financiadora das favelas teresinenses, as desumanas casas populares que se espalham por essa tristíssima outrora encantadora Teresina. Delas existe um tipo, denominado EMBRIÃO, que representa uma afronta às pobres criaturas de Deus.

Abriram-se inscrições faz algum tempo para as habitações miseráveis desses conjuntos favelados. Muitos, centenas, se inscreveram e pagaram a taxa respectiva, que os banqueiros oficiais embolsam sem a mínima cerimônia. E os inscritos ficaram à espera de um sorteio, que se realizou para tormento e angústia de imensa fila dos desprezados por um sistema de perversidades.

Que aconteceu? A Caixa Econômica, por intermédio do seu agente denominado Companhia de Habitação do Piauí, exigiu comprovação de renda estabelecida por esse banco federal explorador da jogatina e de juros astronômicos. Muitos não puderam oferecer os rendimentos exigidos, pois, servidores estaduais, o próprio Estado lhes paga quase apenas um terço do salário vigente. Outros tantos, com dois empregos, um público outro privado, foram recusados, sob alegação de que empresas e instituições concediam falsas declarações de renda, imputação criminosa por parte da Companhia de Habitação e da Caixa Econômica Federal.

Conheço caso em que forneci recibo de percepção de salário na entidade que dirijo e o documento foi recusado, prejudicando - se a humildade servidora sorteada.

A Caixa Econômica Federal acha pouco o desrespeito aos contratos da casa própria, os cálculos enganosos para arrancar mais dinheiro das vítimas, os juros inconstitucionais e aviltantes cobrados, o imoral sistema de penhor de bens, a jogatina no Brasil inteiro por ela patrocinada, as imorais casas populares que financia para maior humilhação dos patrícios - e ainda recusa documentos de renda passados legalmente, para insultar a pobre família piauiense. Uma molecagem.


A. Tito Filho, 20/10/1989, Jornal O Dia

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

NATAL - II

Renato Castelo Branco, criador de momentos inesquecíveis de arte verdadeira, concebeu e escreveu esta jóia inimitável - uma lição de sabedoria e de verdade, intitulada A BOA NOVA:

Quando a Estrela de Belém
anunciou a Boa Nova
os Reis Magos vieram do Oriente
carregados de ouro
incenso e mirra
prostar-se ante o Menino Jesus.
Mais depois eles vieram
Heródes e Caifás
Judas e Pilatos
- a crueldade e intolerância,
a traição e o calvário.

A verdade está em que os homens criaram uma sociedade injusta e perversa, dividida em esbanjadores e famintos. Repudiam-se as lições do Menino-Deus. Há os que afrontam os maltrapilhos, os que matam para o sustento de ambições malditas, os que extinguem vidas para que os lucros se tornem partes em nome de irresponsabilidade. Neste mês de dezembro, houve no Recife um casamento em que se dissiparam milhões de cruzados em futilidades, em enfeitações, em trajes com rabo de dez metros de comprimento, em comes e bebes sobejantes, enquanto na capital pernambucana meninos esquálidos e famintos se alimentam de restos de comida das latas de lixo. Horas antes do ministério da gruta de Belém, a covardia, de tocaia, matou um líder que defendia os injustiçados e lutava pela preservação da natureza dadivosa. O dia 24 de dezembro representou a fartura na mesa dos ricos sem coração e a miséria do menino pobre, que nunca viu um brinquedo de Papai Noel. E muitos, coitados, pagaram com a vida o passeio de barco, de altas quantias, para as delícias de um trinta e um de dezembro no Rio, cidade de dramas de miséria e do crime dos miseráveis. Pobres vítimas da ganância e da irresponsabilidade.


A. Tito Filho, 26/01/1989, Jornal O Dia

QUEIMAÇÃO - I

Na manhã de 20 de setembro de 1988, pelas nove horas, Armando Basto me telefonou do Palácio de Karnak. Pedia que eu fizesse uma campanha a fim de despertar o interesse da comunidade na instalação de forno crematório em Teresina. O sujeito, antes de passar desta para vida pior, escolheria: ou terra nos peitos, ou queimação dos restos mortais respectivos. Caso o pobre diabo não pudesse manifestar a vontade, por ele falaria a família.

Prometi a Armando artigos sobre o assunto. De maneira do mesmo dia, Armando abotoou o paletó, entristecendo a comunidade.

No Rio de Janeiro e em São Paulo, já se instalaram fornos para incineração de cadáveres, por meio da eletricidade, num calor de milhares de graus. Certa ocasião, ouvindo a respeito do assunto, assim se pronunciou Dom Vicente Scherer, chefe da Igreja Católica no rio Grande do Sul: "A cremação de cadáveres não se opõe a nenhum artigo da fé cristã. Com a mesma facilidade Deus ressuscita um morto incinerado pelo fogo como outro reduzido a pó pela lenta decomposição do sepulcro. Mas os sentimentos de afeição aos entes queridos, que a morte arrebatou, insinuam e recomendam o habitual uso do sepultamento que parece conservar de alguma maneira a presença amada dos parentes e amigos que partiam pela identificação e conservação do lugar em que jazem os seus restos mortais".

Conclui o alto dignitário eclesiástico: "No intuito de inculcar a preferência pelo modo de sepultamento consagrado pela tradição milenar e recomendando pelo simbolismo de sua dignificação, o decreto do Vaticano, proíbe que a cerimônia de encomendação dos corpos, que são cremados, se faça no próprio lugar da incineração e não permite o acompanhamento do sacerdote celebrante no exercício da função até o forno crematório. Se alguém, portanto, tiver razões ou gosto para determinar a incineração do seu corpo, tem o direito de fazê-lo, mas recomenda-se o enterramento tradicional que melhor corresponde a laços afetivos que se estendem além da data do falecimento e melhor exprimem verdades fundamentais da fé que iluminam a vida e transfigura a morte".

Todos atestam que a morte é o fim da vida - certamente. Ninguém dela se exime. A vida supõe a morte, logo esta passa a circunstância natural, episódio de simplicidade sem contraste. Por que, então, depois da morte, o ritual trágico, impressionante, do enterro - cerimônia lúgubre, de indescritível tristeza, adotada no Brasil? Escritor de fama confessou:

- Não tenho medo da morte, tenho medo do enterro.


A. Tito Filho, 22/04/1989, Jornal O Dia 

A VIOLÊNCIA NOS ESTADOS UNIDOS

Saloons e dancings enchem de violência a vida norte-americana. De violência é a história da estrada de ferro, o cavalo-de-ferro dos índios, e a do telégrafo, que o dono da terra e o explorador das diligências não aceitavam. Tudo isto num mundo de liberdade para a libertação explosiva e derivativa do jogo e das bebedeiras desenfreadas, como substitutos da mulher.

Valia mais a vida do animal do que a do homem. A lei era a da pistola sobre o balcão da bebida e sobre a mesa do jogo. Era a lei também a estrela do xerife selvagem, em que se transformava o bandido do dia anterior. E nomes desfilam, os nomes dos "heróis" das canções populares: Sam Bass, Jim Bridger, Billy Brooks, Búfalo Bill, Calamity Jane, os irmãos Clements, Bill Doolin, Wyatt Earp, Pat Garret ( o matador de Billy the Kid), Doc Holyday, Jesse James, Bat Masterson, John Ringo, Johan Suttr, os irmãos Young - nomes que o livro e o cinema se encarregaram de universalizar e que ganharam popularidade, no seu tempo e tempos fora, todos cercados de admiração e respeito do povo, porque o povo cria que todos lutavam contra os opressores e os usurpadores, e roubavam ao rico para dar ao pobre - uma espécie de Robin Hood da Inglaterra. Eram amados e cantados.

Não há pois exagero em dizer-se que a violência se confunde com a história dos Estados Unidos, a violência do índio contra o branco, a violência provocada pela intolerância religiosa dos primeiros colonizadores, a violência ao tempo do ouro e das caravanas,a  violência para a defesa da terra, a violência ao tempo da expansão do gado, no leste como no oeste. E depois a violência da Guerra de Secessão, em que sulistas e nortistas se odiaram, e ainda a violência do negro libertado contra o branco e do branco em maioria contra o negro. E depois a página triste do gangsterismo de Al Capone e de Dillinger - a violência que é na América do Norte, como acentuou Brienne, um culto de destruição dos seres humanos, marca do ficcionismo popular falado, escrito, televisionado e exibido nos cinemas, numa propaganda ostensiva e subliminar de truculência e do recuso aos meios extremos de ódio para tudo resolver.


A. Tito Filho, 20/07/1989, Jornal O Dia

domingo, 18 de setembro de 2011

NATAL

Em Teresina, como em quase todas as cidades brasileiras, o Natal constituía a mais linda festa do ano, significativa por excelência, sobretudo na comunhão espiritual da comunidade. Alegria nos corações. A graça e a beleza artística dos presépios nos templos religiosos - e o Menino Jesus vestidinho em camisa muito alva de seda ou de cambraia. À meia-noite, a missa do galo, igreja repleta de gente de variada categoria social. Os sinos repicavam mensagens de amor para que todos se fizessem mais irmãos. Depois do oficio divino, no lar de rico aconchego afetivo, a família se entrega, unida em carinho, à ceia natalina, composta do peru morto na véspera e assado nos velhos fornos de barro, com o brasileiro bem vivo e ardente. A farofa da ave era uma gostosura. Comiam-se outras iguarias saborosas, preparadas por cozinheiros de doutos conhecimentos nesses assuntos culinários. Não se desprezavam o bom vinho, nem a doçaria de dar água na boca.

Os tempos correram na sua marcha inexorável. A produção industrial aumentou de modo incontrolável. Houve necessidade de vender e vender sempre mais. Inventou-se o rádio. Criou-se a televisão. A propaganda intensa dentro dos lares transformou o Natal num período de angústia generalizada, aperreante, aflitivo, de ânsias para os assalariados na consecução do dinheiro destinado à compra do presente. Esqueceram-se as lições de humildade do Menino da manjedoura de Belém. Cristo passou a objeto das ambições da indústria e do comércio. Avilta-se a beleza do episódio do nascimento. O silêncio da gruta se desrespeita com a barulheira infernal dos anunciantes e dos camelôs de enjoativa palração.

Renato Castelo Branco, criador de momentos inesquecíveis de arte verdadeira, concebeu e escreveu esta jóia inimitável - uma lição de sabedoria e de verdade, intitulada A BOA NOVA:

Quando a Estrela de Belém
anunciou a Boa Nova
os Reis Magos vieram do Oriente
carregados de ouro
incenso e mirra
prostar-se ante o Menino Jesus.

Mas depois deles vieram
Herodes e Caifás
Judas e Pilatos
- a crueldade e a intolerância,
a traição e o calvário.

O canto maravilhoso de Júlio Romão da Silva é emocionante, quando põe, numa peça teatral, as verdades na boca do Mestre:

Existiam dores no mundo, sonhei um mundo sem dores, havia feridas no mundo, sonhei um mundo sem chagas, havia um mundo faminto, sonhei um mundo sem fome, havia lágrimas no mundo, sonhei um mundo sem lágrimas, havia um mundo recluso, sonhei um mundo sem grades, havia um mundo servil, sonhei um mundo liberto, havia um mundo odiento, sonhei um mundo sem ódios, havia um mundo com muro, sonhei o mundo sem muro, havia um mundo sem paz, sonhei a paz para o mundo - E MATARAM-ME. Ó sátrapas, ó víboras, ó abutres, ó vampiros, ó répteis, ó sacripantas, ó chacais! Quando deixareis o charco e a carniça? Quando ouvireis a melodia do meu canto e vereis a beleza do meu sonho? Quando parareis de me matar para entenderdes a mensagem do meu Salmo?


A. Tito Filho, 24/12/1989, Jornal O Dia