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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

POLÍCIA - III

Sinceramente que estou desconhecendo o meu Brasil. Era bom o Brasil. Tive uma infância alegre, risonha, banhando nas boas águas do Marataoã, no pedaço de território piauiense chamado Barras. A gente brincava de bola de meia, no beco de casa, e manhãzinha colhia creoli e coroa-de-frade pelas margens da riacharia. Minha adolescência se deu em Teresina, nos estudos, e no velho Marruás, nas férias. A mocidade se dividiu por Teresina, Fortaleza, Rio de Janeiro. Ditosos tempos. Namoros acolchoados na penumbra dos cinemas. Cinco anos na terra carioca, de noite eu gostava dos cabarés da Lapa e dos bares chiques de Copacabana. Por essas andanças e moradias nunca ouvi falar de assalto. Havia gatunagem. Crime só de vingança por causa de chifres, ou em bebedeiras nas biroscas das favelas. Em quase tudo, ordem, disciplina, camaradagem, gosto de viver. O Brasil atravessou ditadura e descambou nessa tal democracia que nunca foi ao menos imitação da dita cuja. Democracia supõe respeito, harmonia social, ausência de fome e de miséria, e da infame injustiça contra os pequenos. Não pode haver regime democrático onde impera o triste espetáculo dos marajás, das mulheres dos marajás, filhas e netos dos marajás, ao lado das esmolas pagas a milhares de pobres diabos, os barnabés ou funcionários públicos mendigos, ou operários obrigados a baixíssimo salário mínimo, cujo valor não permite a aquisição de meio quilo de carne por dia.

Alberto Silva sempre se mostrou sensível aos mais puros sentimentos de solidariedade humana. Não sou político nem sei bajular quem quer que seja. De longe conheço o atual governador do Piauí, homem leal a Deus e às criaturas criadas por Deus. E digo ao governante, apelando para a sua magistratura, que não pode o policial civil do Estado ganhar, senão com fome, os magríssimos vencimentos que vem recebendo. Quanto ganha um delegado? Menos de sessenta cruzados novos mensais ao que parece - justamente a autoridade sobre cujos ombros pesam a responsabilidade da segurança coletiva.

O Delegado Antônio de Melo Lima defende uma causa justa, decente, digna. Merece apoio da coletividade.


A. Tito Filho, 29/04/1989, Jornal O Dia

POLÍCIA - II

Nos princípios da década de 30, os Estados Unidos viveram momentos emocionantes. John Dillinger inaugurou os tempos sangrentos de assaltos a bancos. Duas vezes apenas a polícia norte-americana teve sorte na luta contra o homem que a imprensa considerou o INIMIGO PÚBLICO Nº 1 do país. Uma ocasião conseguiu prendê-lo, mas o célebre bandido fugiu da cadeia. Noutra a oportunidade, traído por conhecida meretriz, Dillinger foi varado a balas, quando saía disfarçado de um cinema em Nova Iorque. qual o segredo desse famoso gangster, temível assaltador de bancos, comandante de um grupo de assassinos frios e useiros em tropelias criminosas? Simples. Dillinger e os seus liderados dispunham de armas mais poderosas do que as usadas pelos homens da lei. Aconteceu por esta forma: o aparelho policial sempre esteve sem os instrumentos necessários ao combate do crime e dos que vivem da sua prática.

À deficiência de veículos, de armas, de laboratórios, acrescente-se de alguns anos para cá a péssima remuneração dos agentes policiais.

Veja-se esta hoje sofrida e desconjuntada Teresina, uma cidade que Saraiva edificou entre a poesia e a tranqüilidade de dois rios, agora o pasto dileto das ambições imobiliárias para o sustento do desperdício do soçaite, nas noites regadas a uísque e corpos femininos.

Teresina progrediu muito. Possui espigões, pistoleiros, crimes misteriosos, pivetes, motéis de alta rotatividade, restaurantes de luxuria desbragada, veadagem encantadora, sapatões de mãozinhas dadas nos calçadões sem sentido, mas a polícia está incapacitada de vigiar os locais em que desfilam as tristes personagens das noites de luxúria e de drogas. Se aos desprotegidos policiais civis sobram o risco e o receio das balas dos marginais, falta-lhes até mesmo o conforto de poder ao menos, humildemente, sustentar a família.

A luta do delegado Antônio de Melo Lima, presidente da Associação de Policiais Civis, merece apoio. E reclama de Alberto Silva sensibilidade e decisão. Os policiais ganham miséria - eis a verdade.


A. Tito Filho, 28/04/1989, Jornal O Dia

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

NOMES ANTIGOS

Rua Álvaro Mendes. Nomes anteriores: rua Grande, doutor Portela e novamente rua Grande. Observação: da praça da Liberdade, em diante, a partir de 1939, chamou-se Monsenhor Gil. Tal divisão foi anulada em 1976.

Rua Senador Teodoro Pacheco. Nomes anteriores, rua Bela, Marquês de Paranaguá, Bela.

Rua Lisandro Nogueira. Nomes anteriores: rua da glória, desembargador Gil, Benjamim Constante, Glória.

Rua Eliseu Martins. Nomes anteriores: rua Augusta, dos Negros, Anfrísio Fialho. Observação: esta rua foi dividida da seguinte forma: praça João Luís Ferreira, rua Anfrísio Lobão; da praça Demóstenes Avelino à praça Floriano Peixoto, rua General Osório, Lei de 1976 considerou-se rua Eliseu Martins em toda a extensão, desaparecendo as divisões mencionadas.

Rua Firmino Pires. Nomes anteriores: rua do Imperador e Cesário Alvim.

Avenida Antonino Freire. Nomes anteriores: rua São Benedito, Padre Marcos, avenida Frei Serafim, avenida Odilon Araújo.

Rua São Pedro. Nome anterior: Padre Fonseca.

Rua Olavo Bilac. Nome anterior: Santo Antônio.

Rua Coelho Rodrigues. Nomes anteriores: rua da Palma, rua do Fio. Observação. Em 1939, esta rua foi assim dividida: da praça João Luís Ferreira à praça Demóstenes Avelino, rua Machado de Assis; da praça Demóstenes Avelino à avenida Miguel Rosa, rua Osvaldo Cruz. Em 1976, a divisão foi revogada e a rua, em toda a linha, se chama Coelho Rodrigues.

Rua Félix Pacheco. Nomes anteriores: São José e Siqueira Campos.

Rua Paissandu. Nomes anteriores: rua do Pequizeiro. Observação. Esta rua foi assim dividida, em 1939: da praça Pedro II até a praça Frei Serafim (hoje são Benedito), rua Duque de Caxias; desta última praça em diante, rua Monsenhor Lopes. A legislação de 1976 revogou a divisão, estabelecendo o único nome de Paissandu.

Rua Areolino de Abreu. Nome anterior: rua do Amparo.

Rua Simplício Mendes. Nome anterior: Quintino Bocaiúva. Observação. Em 1939, a rua foi assim dividida.


A. Tito Filho, 30/10/1989, Jornal O Dia

NOMES ANTIGOS

Avenida Miguel Rosa. Chamou-se avenida Circular.

Rua Clodoaldo Freitas. Nomes anteriores: rua do Fogo e rua Palmeirinha.

Rua Lucídio Freitas. Chamou-se rua da Matinha.

Rua Alcides Freitas. Chamou-se rua 13 de Junho.

Rua Rui Barbosa. Antiga Estrada Nova.

Avenida Frei Serafim. Inicialmente, avenida Frei Serafim, depois Getúlio Vargas. Voltou à primeira denominação.

Rua Sete de Setembro. Da praça João Luís Ferreira, no rumo sul, recebeu, em 1939, o nome de Miguel Couto. A divisão desapareceu em 1976.

Rua Desembargador Freitas. Antiga rua da Estrela. Observação. Em 1939, ao trecho entre a praça Landri Sales e a avenida Maranhão foi dado de Humberto de Campos. Tal denominação foi revogada em 1976.

Praça João Gayoso. Nomes anteriores: praça da Santa Casa, praça Conde D'Eu, praça Campo de Marte, praça 13 de Março, praça Engenheiro Areia Leão, praça Campo de Marte.

Praça Marechal Deodoro. Nomes anteriores: Largo do Amparo, praça do Palácio (alusão ao Palácio do Governo, ali localizado), praça da Constituição. Observação. Na praça Deodoro está situado o Parque da Bandeira.

Praça Maria do Carmo Rodrigues. Chamou-se praça Poti Velho.

Praça Pedro II. Nomes anteriores: Aquibadã, Independência, João Pessoa.

Praça Landri Sales. Nomes anteriores: Baixa da Égua, ponto de ótima pastagem. Aí eram peados os animais. Apareceram os ladrões de peias. A cidade se queixava desses meliantes desconhecidos. Um, apareceu morto, com o crânio partido, um negro, e perto dele uma bonita égua cardã, que tinha a alça da peia desamarrada e o caso do pé direito manchado de sangue. A partir daí, a denominação popular de Baixa da Égua. Depois se chamou Largo do Paço da Nação (abertura de um poço na praça). Seguidamente, praça 15 de Novembro e praça do Liceu (batismo popular).

Praça Rio Branco. Nomes anteriores: praça do Comércio e Uruguaiana.

Praça da Liberdade e Praça São Benedito. Eram uma só, com estas anteriores denominações: Monsenhor Gil, São Benedito, Frei Serafim. Atualmente o grande largo onde se edificou a igreja de são Benedito tem duas denominações: do lado da Escola Técnica Federal, praça da Liberdade; do outro lado, praça São Benedito.

Praça João Luís Ferreira. Nomes anteriores: Padre Marcos e praça da República.


A. Tito Filho, 31/10/1989, Jornal O Dia

domingo, 18 de setembro de 2011

PERNOSTICISMO

Cidade amável, simples, humilde, Teresina, porém, de alguns anos passados aos dias de hoje se vem tornando antipática, pedante, cheia de nó pelas costas com a valorização de uma elite de NOVOS-RICOS, aquelas pessoas de riqueza recente, conseguida com rapidez, as vezes na sorte das lotecas ou outro tipo de jogatina nacional. Sempre inculto e de pouca instrução, o novo-rico procura revelar hábitos de refinada ridicularia, sobretudo na fala inculta e nos trajes espalhafatosos, e com estes conquistam a posição almejada de AS DE MAIS e, no caso de homens, OS ELEGANTES. Os nossos bons colunistas sociais, inteligentes sempre, devem rir muito de tais espevitações masculinas e femininas e a ricos e ricas atribuem superlativos como elegantérrimo, chiquérrima e quejandos. bestice de vaidosos.

Mas passemos a outra classe. Observamos os imitadores, os que copiam a linguagem alheia de modo errado e ridículo. RIO POTI HOTEL não é expressão portuguesa, mas arremedação tola e subserviente do inglês. A forma vernácula está em HOTEL RIO POTI, em cujos salões existe uma denominação estapafúrdia: TARRAFA'S, sim TARRAFA'S, com o apóstrofo e o S. Sabe-se que tal se dá no inglês. A virgulazinha antes do S indica posse. Assim: DE TARRAFA. Que significa semelhante besteira? Na língua inglesa escreve-se BOB'S BAR, isto é, BAR DO BOB.

Pior a gente lê no seguinte: MARIANO'S COIFFEUR. Que diabo é isto? A tradução seria: CABELEIREIRO DE MARIANO, quando MARIANO é cabeleireiro dos outros. Interessante: a tolice mais se alarga porque a expressão pertence a duas línguas: MARIANO'S (inglês) e COIFFEUR (francês).

Teresina ridícula. E dizer que nesta cidade se cultivavam hábitos de fidelidade à bonita e hoje crucificada língua portuguesa.

COIFFEUR vale atestado seguro de besteirice local.


A. Tito Filho, 19/09/1989, Jornal O Dia

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O ACADÊMICO

Os restaurantes de Teresina, nos dias de hoje, exibem nomes afrancesados, que nesta terra se perdeu a originalidade. Tudo se copia do Rio e de São Paulo. E a bóia se faz sofisticada, um bife pequenininho coberto de massas e pastas e uns molhos provocadores de distúrbios intestinais. Os preços são os dos olhos da cara, tiram-se cabelo e barba da tola freguesia.

Não se come em Teresina como antigamente. Vive-se de recordações. O Bar Carvalho do Zecão, na praça Rio Branco, oferecia um filé de grelha criado pelo gorducho cozinheirão vindo da Espanha. Era saboreá-lo de farofinha gostosa ao lado, duas azeitonas e um bocado de ervilha, e depois morrer, com lucro ainda. Que dizer do frege do Jumentinho, por detrás do Liceu? Voltava-se do cabaré, da cama de quenga, no amiudar do galo, e Jumentinho a postos, com uma mão-de-vaca gordurosa e reconfortante. No Mafuá, havia a biboca do PADIM CIÇO, que o proprietário escrevia como falava ou como sabe, com um bocado de cedilhações. Funcionava de tarde para os farrista que começavam de manhã, sobretudo nos dias de sábado. Uns cachorros sarnentos, roçando nas pernas da gente, aguardavam o osso bem lambido, de tutano chupado. Descendo-se a rua Paissandú, perto da beira do rio Parnaíba, comerciava a Maricota, velha rameira aposentada sem mais freguesia para as vergonhas encarquilhadas. Especialista em peixada à base de muita apimentação. Cozinhava num panelão de ferro, do tempo em que o capeta andou no mundo. Ninguém esqueceu ainda a antiga GALINHA DA JÚLIA, nas bandas da Piçarra. As aves eram assadas e se acompanhavam de farofa e cheio apimentado. Gente de fora, até das estranjas, indagava por esse acepipe divino. O DOTÔ ficava na rua Eliseu Martins, proximidades da praça Rio Branco. Vendia panelada e mão-de-vaca. Antes da bóia, uns dois tragos de pinga boa, para uns arrotamentos necessários. Outros que existiram me desculpem a falha da falta de memória.

Agora desapareceu o restaurante Acadêmico do boníssimo Pedro Quirino, de comida variada e gostosa. Nele tive acolhimento por quarenta anos, trinta dos quais eu debitava as comedorias e pagava a conta no último dia do mês.

Teresina está morrendo. A boa Teresina, onde a gente comia sem os desarranjos das bóias sofisticadas.


A. Tito Filho, 21/03/1989, Jornal O Dia

FÁTIMA

Talvez a razão seja do subconsciente, assim como que freudiana, essas cousas de que meu velho amigo Serapião não entende. Faz muito tempo que conheço o bom Serapião, desde que eu, ele e outros molecotes do mesmo tope olhávamos peito de lavadeira nas cachoeirinhas das Ilhotas, no rio Poti. Nesse ambiente conheci uma menina interessante de nome Fátima, mulatinha cheia de sem-vergonhice, roliça, que esperava a mãe deitada debaixo dum pé de pau copado, de boa sombra. A velha batia roupa, nas pedras. Fátima me chamou e fomos para um lugar mais escondido.

Namorei outra Fátima no velho Marruás. Gostava de mascar tabaco e dava umas cuspidas cheirosas, bonitas, esparramadas. Apreciava amor dentro d’água.

Quando estive doente no Rio, minha enfermeira, perita em injeção nas nádegas, me deu assistência fraterna. Feia, carnes moles, mas criatura de Deus na caridade de bem servir. Andava por certos sessenta janeiros e tinha danação por piadas de papagaio.

Em 1952, vi a imagem de Nossa Senhora de Fátima, em Teresina. Uma beleza de santa. Olhar piedoso, terno. Protetora dos pecadores e dos que acreditavam na sua graça divina.

Fátima é um nome de muita doçura e as Fátimas que conheci e conheço sempre me inspiraram imensa simpatia.

Na capital do Ceará, fui enamorado de uma Fátima tão virtuosa que me deixou para fugir aos pecados do mundo. Entrou para o convento mais fechado dos baianos.

Fátima se chamava caridosa tia minha que morreu de parto. Grande mulher em espírito e coração.

Tenho recordação de mais oito ou nove Fátimas, tudo gente de bom gosto, de disposição para a convivência amiga.

Agora mais uma Fátima me convoca simpatia. Estava no jornal. De fisionomia alegre, menina feita por Deus que a colocou no meio desta humanidade cheia de lágrimas nos olhos dos pobres e dos enjeitados da vida. Rico não chora, não ganha salário mínimo, rico vive de alforje cheio.

A notícia falava de uns dinheirinhos moles que Fátima havia ganho em negócio de contracheques - negócio inocente, de rendas magríssimas e que ela dividia com um bocado de parentes e amigos pobríssimos, como ela mesma.

Eu me lembro do caso da mandioca, em Pernambuco, que engordou de muitos milhões cabras espertos, e dos banqueiros salvos pelo presidente Sarney e que de vez em quando farreiam em Paris - eu me lembrei de dezenas de pançudos neste país que passeiam à tripa forra com depósitos nos bancos da Suíça.

No Brasil somente Fátima, de irradiante simpatia, está pagando o milho que muitos cabras vivem comendo, nas safadezas de que se compõe a República.

Fátima tem a minha e a simpatia de muita gente, num país engraçado em que os gorduchos banqueiros esfolam os necessitados e lucram milhões, de meia em meia hora. O erro de Fátima foi meter-se em negócio besta de contracheque no Piauí.


A. Tito Filho, 19/01/1989, Jornal O Dia

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

CALOR

Ao escrever o livrinho TERESINA MEU AMOR, tencionei num dos seus capítulos destruir a imagem de que a capital do Piauí vale um inferno de calor, uma caldeira infernal. Os próprios piauienses se encarregam desta publicidade infiel.

Registra Pereira da Costa, na sua famosa "Cronologia Histórica do Estado do Piauí", que ano de 1882 se fizeram nesta Província as primeiras observações meteorológicas, dirigidas pelo engenheiro Benjamim Franklin de Albuquerque Lima, chefe da comissão de melhoramento do rio Parnaíba. Dos estudos se serviu H. Moritze no trabalho "Esboço de uma climatologia do Brasil", em que, tratando da capital piauiense, escreveu: "A temperatura média anual às 9 da manhã é de 26º. Os meses mais quentes são os fins da estação quente, isto é, de setembro a dezembro, cuja temperatura é em média 28,5, o mais fresco é o de maio de 26,1, é o último da estação chuvosa. Como se vê, a amplitude da variação anual é inferior a 2,4. Durante a estação seca o vento sopra de S, de SE e E, e durante o período das chuvas, do N. Contam-se em todo o ano 65 dias de chuva, cujo máximo cai em abril. As tempestades são freqüentes, 20 em média por ano, distribuídas entre os meses de setembro a maio".

Modificou-se o clima, evidentemente por razões inequívocas, como a derribada das matas próximas do rio Parnaíba, para alimentar de lenha as antigas caldeiras da usina elétrica. Haja lenha para o enriquecimento dos fornecedores. Já agora as matas do rio Poti estão sendo sacrificadas para a vergonhosa especulação imobiliária que ninguém freia nem impede.

Ninguém se refere ao clima do Rio de Janeiro nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro. O carioca pode estrelar ovos, ao meio-dia, no asfalto da avenida Rio Branco...

O ilustrado Silva Melo, no seu gostoso livro "Panoramas Norte-Americanos" conta relativamente ao clima de Nova Iorque:

"A minha permanência em Nova Iorque foi durante os meses de junho, julho e agosto, os meses mais quentes do ano, de pleno verão...

As noites eram sufocantes e os dias tremendamente quentes... Em Nova Iorque houve naquele dia 9 mortos por insolação e o termômetro no Central Park marcou ao sol 142 graus, mais de 60 centígrados. Os jornais descreviam Nova Iorque como um imenso forno de cimento e asfalto, cujo calor justificava realmente tal comparação...

O calor era tão intenso que se tornava necessário mudar de roupa mais de uma vez durante a noite, molhando o travesseiro e o colchão" (Silva Melo - "Panoramas Norte-Americanos" - páginas 149-150).

O calor de Teresina é extraordinário, admirável, mas no afeto da sua gente...


A. Tito Filho, 21/11/18989, Jornal O Dia

TERESINA - GENTE BOA

DONDON, repórter, redator, tipógrafo, revisor, diretor, impressor, vendedor, proprietário do jornal "O Denunciante", noticioso, crítico, censor de costumes, espinafrador de políticos e administradores. Um dia os poderosos do momento consideraram louco o jornalista e vingativamente o puseram no hospício. Quando saiu, pensou-se que recuaria nas censuras e espinafrações. Desassombrado, reapareceu mais valente, sem que lhe faltasse o esclarecimento identificador do parafuso frouxo: "O dono deste órgão esteve recolhido ao asilo dos doidos, onde passou dez dias, seis por conta do governo e quatro por sua própria conta". Exerceu ainda o oficio de vendedor de feixes de capim em lombo de jumento. Três animais ensinados. De acordo com a voz de comando de Dondon, os jegues seguiam pela direita, pela esquerda ou efetuavam alto. Dava gosto ver o comandante pelas ruas, calças sungadas até os joelhos, alpargatas vistosas, camisa de manga arregaçada, oferecendo capim aos burros de Teresina.

MARIA SAPATÃO, negra gorduchona, beiços grandes, dentes alvos, peitões caídos, pernas fortes, barriguda e bunduda pezões nos sapatões famosos, enfeitava-se de um dilúvio de voltas baratas no pescoço, boa dúzia de pulseiras nos braços roliços, anéis pelos dedos das mãos, até no polegar. Era o toque de nobreza idiota passeando as ruas.

JAIME DOIDO, dos mais acatados birutas da cidade. Famoso cabo de eleições da antiga União Democrática Nacional, a famosa ODN como a apelidava a chacota dos adversários. não gostava de dinheiro muito. Dinheiro só de pouquinho. Dinheiro muito fica dono da gente - filosofava da forma de bom lelé da cuca.

AVIÃO, dos citados, o único que ainda não se foi desta para melhor vida. risonho. Põe caixa enorme de papelão na cabeça e sai a enchê-la de quanta besteira arrecada pelas calçadas. Aprecia encontros noturnos com perus em quinta de casa alheia. Quando o procuravam, devolve a ave que morre na véspera. Vive a imitar velhos filmes e seriados de aviação:

- Onnnn... onnnn... onnnn... onnnnn - acompanhando os roncos fanhosos de movimentos ondeados da mão direita espalmada, como se estivesse em reproduzir as piruetas de heróis cinematográficos à procura dos homens maus.

E avião faz de mocinho, indicador apontando, firme, como revólver de balas sem conta. e ele:

- Morreu, bandido covarde... tá... tá... tá... tá...

Representações nas vias públicas. De graça.


A. Tito Filho, 20/08/1989, Jornal O Dia

PROGRESSO

Teresina, gostosa, suave, tranqüila, pitoresca, haveria de encontrar os caminhos do progresso sem fim. O Rio de Janeiro deu o exemplo maravilhoso. Derribou os bonitos chalés da avenida Atlântica e as mansões de Copacabana e no lugar surgiu uma das maiores e maus sufocantes selvas de pedras do mundo. A Galeria Cruzeiro, lugar onde se reuniam boêmios e políticos para o chope, dia e noite, foi ao chão. Na área se construiu um espigão de mais de trinta andares. Era a americanização do Brasil. A época das misses de mulheres peladas, dos salgadinhos, dos sutiãs acolchoados, do feliz aniversário, das debutações, do descabaçamento generalizado.

A buliçosa Teresina das pracinhas, do namoro de olhos, do cinema romântico, da roda na calçada, a boa Teresina também copiaria o figurino das megalópoles, ela, a cidadezinha dos sonhos dourados, se transformou em cidade grande, habitada de seiscentas mil almas, de quais quatrocentos mil provieram dos municípios piauienses, gente do interior, cansada, sem terra e sem casa, hoje metida nos espaços miseráveis dos conjuntos habitacionais.

Teresina chegaria ao progresso total, inclusive do pistoleiro, da churrascaria, da sujeira, das praças sem virtude, verdadeiros mercados, noites de gueis e sapatões.

Chegaria a vez dos arranha-céus. E estas já pululam por todos os lugares, sobretudo nas mediações da outrora paisagem de beleza do Rio Poty. Já se criou até uma BEVERLY HILLS, ou BEVERLEY, a mesma cousa, cuja propaganda se faz com retrato de jovens bebendo uísque e as indicações MORAR EM BEVERLY HILLS É UM LUXO, É UM PRIVILÉGIO, É UM PRAZER. De lá, dos apartamentos, os milionários moradores têm a sentimental vista dos residentes sem destino, DEBAIXO DAS PONTES DO POTI, retrato perfeito de uma sociedade doente, repartida entre os felizes, que são poucos, e os arrasados, que são muitos.

O nome correspondente à nossa subserviência do povo mendigo, copiador dos norte-americanos, que nos chupam tudo e nos humilham, mas que devemos imitar, num gesto de homenagem. BEVERLY em inglês é nome de pessoa. HILLS, colinas, cenário de elevações de terreno. BEVERLY HILLS fica em Hollywood, a velha capital do cinema de outrora, bairro de luxo de artistas milionários, donde se avistam montes cobertos de neve no inverno. Esse conjunto de incrível conforto tupiniquim necessita já e já da fabricação de neve e da construção de colinas, pois até agora está de sol abrasador e possui apenas, como paisagem, os morros do QUEROSENE e do URUBU.


A. Tito Filho, 27/09/1989, Jornal O Dia

domingo, 4 de setembro de 2011

DESFIGURAÇÃO

Teresina é das mais maltratadas cidades brasileiras. Vigoram as paisagens deformadas, como se estivessem constantemente sob apedrejamento. Certas áreas de lazer são sujas, incentivam a malandragem e fogem aos objetivos para os quais foram criadas. Contam-se por todos os dedos e mais alguns os aspectos desfigurados da outrora singela capital. Fizeram-se calçadões e estes vivem repletos de camelôs, criando-se o comércio paralelo. A praça Rio Branco, outrora recanto repousante e alegre, semelha nos dias que correm uma concentração de desocupados. A praça João Luís Ferreira, de elegantes bambuais nos velhos tempos, local de espairecimento de crianças nos jogos inocentes das bolinhas de gude, serve agora de mercado, onde se vendem frutas, brequefeste para os pobres diabos da previdência que não pregaram o olho, e outros tipos de alimentação de vítimas da quebradeira. Que dizer da pracinha querida, de namoricos dos bons tempos, alegre, convidativa, a Pedro II? Corresponde hoje a uma vasta concentração de mundanas, cachaceiros, qualiras, drogados, sapatões e indivíduos sem aptidão para o trabalho.

Fez-se a chamada PRAINHA para a diversão, os encontros amigos, o descanso sexta-feirinho, sabativo e dominical, o que ocorreu nos primeiros dias. Jaz como área de favela, e os bares típicos acolhem farristas e respectivas cachaçadas. Não há nela segurança e viceja o crime, sempre que se desentendem os deseducados para a vida.

Uma lástima o Parque da Cidade. Foi feito para o companheirismo, para a prática desportiva, para as refeições fora de casa, nos dias festivos da semana. Os desabusados depredaram-no.

Ao cabo de contas, nenhum respeito merece a cidade que José Antônio Saraiva idealizou e construiu com sacrifício e coragem. Os teresinenses, na sua maioria, insolentes e desrespeitadores, não têm sido fiéis à memória do saudoso e querido patrício.


A. Tito Filho, 22/03/1989, Jornal O Dia

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A VELHA TERESINA

Ainda em 1952, época do primeiro centenário da cidade, Teresina padecia tristíssimas condições de conforto, em todos os sentidos. Péssimo calçamento das ruas, ausência de higiene, falta de escolas, mendicância generalizada. Chegaria, porém, o chamado progresso físico, o asfalto, os aviões a jato, o comércio de prestações, os restaurantes sofisticados, o carro financiado, a casa do BHN, a televisão, o jornal moderno, a civilização da lancheira, o supermercado onde as matronas compram frango depenado. Nos velhos tempos as senhoras carrancudas só compravam galinhas soprando-lhes as penas e lhes apertavam o bico a ver se o gogo escorria. Os bons cabarés da Paissandu desaparecem, substituídos por motéis e gramas de praças.

De trinta anos para cá a cidade mudou muito. Desespiritualizou-se. Tem no dinheiro o status e o conforto material repousa em dívida. Vigora o cheque sem fundo. Por onde anda o pega-pinto que ajudava a fazer pipi? Teresina possui contrastes aviltantes. Jóquei e Itararé. Mansão e casebre. Morreram hábitos bons. Surgiram universidades e hoje se fabricam doutores para o desemprego.

Garotas ricas se desnudam ao lado das ruas que não têm com que cobrir as suas vergonhas.

Mas Teresina reencontrará o bom caminho. Cada dia fica mais bonita em graças construídas pelas mãos do homem. Os seus intendentes e prefeitos cada qual tem melhorado, dentro das suas possibilidades, os aspectos da criatura de José Antônio Saraiva.

É necessário lutar pela humanização da cidade. Fazer que ela retorne à vida espiritual de antigamente. Enquanto a gente pensar assim, Teresina será sempre um instante de beleza no coração dos que a amam.


A. Tito Filho, 17/08/1989, Jornal O Dia

LEMBRANÇAS

Em 1959, busquei recursos médicos no Rio de Janeiro. Sai de Teresina cedinho, nos aviões DC-3, que realizavam um chatíssimo pinga-pinga: Bom Jesus da Lapa, Salvador, Ilhéus, Montes Claros, Belo Horizonte, Vitória, finalmente a velha capital brasileira, aonde se chegava pelas oito horas da noite. Gerardo Vasconcelos, bondoso dia por dia, me deu carta de recomendação a um doutor dirigente de casa de saúde e às portas destas bati e tive recado de falta de vaga. Mandaram-me para outro hospital, até que alguém, morto ou restabelecido, desocupasse quarto.

Estabeleci-me, de modo provisório, noutra casa de saúde, e nela recebi assistência de um doutor magro, fino, mas sabido como diabo. Depois que me auscultou, e de natural e até demorado interrogatório, consentiu em que eu tinha muita fome. E já noite puxada me conseguiu ovos, presunto e pão.

De manhã, solzão, aberto, recebi a visita do diretor do hospital, de faces e queixo barbudos, bem cheios de barba - uma barba negra, muito negra e bem cuidada. Era o piauiense de nomeada, de fama justa, Correntino Nogueira Paranaguá. Conversou comigo um bom pedaço de tempo, lhano, afável, deixando-me forte impressão de homem honesto, simples e correto.

Durante anos não tive oportunidade de rever Correntino. Mas não saiu da memória o seu gesto bondoso da visita, e de encorajar-me com a esperança de breve reencontro com a saúde.

Em 1976, publiquei livro a respeito das ruas, avenidas e praças de Teresina, biografando vultos ilustres homenageados, ou oferecendo a significação dos nomes de outras vias públicas. Ano seguinte, Correntino mandava-me carta, em que salientava natural decepção ao sentir que a capital piauiense não possuía um beco sequer chamado Joaquim Nogueira Paranaguá, pai do missivista, que reais e relevantes serviços concedeu à coletividade nacional. A voz do filho reclamava a honraria, que os poderes competentes haviam esquecido. Levei o caso ao Prefeito Wall Ferraz, e a justiça foi feita.


A. Tito Filho, 13/04/1989, Jornal O Dia

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

CIDADE AMADA

Dia 5 de setembro de 1859. Era de noite, quando José Antônio Saraiva chegou a Oeiras, a velha Mocha - capital do Piauí, o antigo São José do Piauí, nome com que o primeiro governante da capitania, João Pereira Caldas, homenageou o rei Dom José, de Portugal. A 7, consagrado à independência do Brasil, o baiano assumiu a presidência da província.

Na confluência dos rios Poti e Parnaíba, estava a Vila do Poti, que o presidente visitou ainda nesse recuado 1850. Saraiva não gostou do lugarejo, sujeito a periódicas inundações, atacado de paludismo. Achou conveniente edificar a cidade noutro lugar, uma légua acima, entre os citados rios. Fixou-se no local chamado Chapada do Corsico, antiga fazenda de criação de gado, de muitas trovoadas e faíscas elétricas na estação chuvosa. Ainda hoje trovões de papouco e raios atormenta a população teresinense. E foi aí na Chapada do Corisco que nasceu a Vila Nova do Poti.

A 25 de dezembro de 1850, deu-se o lançamento da pedra fundamental da igreja de Nossa Senhora do Amparo. Mestre das obras: João Isidoro da Silva França. Antes de iniciar o edifício, construiu ele espaçosa casa de palha para se arranchar e por trás delas mais duas, uma como quartel dos soldados, e outra que servisse de abrigo dos escravos. No dia festivo celebrou-se missa na improvisada residência do construtor e houve comes e bebes, o primeiro banquete na futura capital do Piauí. Tocou-se muito foguete. Ao cabo de contas, ia nascer uma cidade, sob os auspícios da bravura e da religião. As mulheres importantes tiraram dos baús os vestidos bonitões e se enfeitaram de jóias caras. Outro braço forte de Saraiva se chamou Manuel Domingues.

A 20 de outubro de 1851, transferiu-se a Vila do Poti para a Vila Nova do Poti, mas o povo justiceiro não deixou que a comunidade morresse, e passou a denominá-la de Poti Velho, ainda agora do mesmo jeito, pobre, de casinhas modestas, povo sofrido e bom - o Poti Velho de permanente simpatia, cheiroso a peixe. Com os anos, tornar-se-ia subúrbio de Teresina.


A. Tito Filho, 22/08/1989, Jornal O Dia

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

AINDA TERESINA

Revi Teresina quase como a deixei cinco anos atrás. Ruas empedradas, poeirentas. Dois cinemazinhos de regular freqüência. Bares desconfortáveis. Velhos cabarés de rameiras célebres. Na moda ainda o Clube dos Diários. Casas residenciais quase todas iniciadas pelo corredor, ladeado de quartos de dormir e desembocando na sala de refeições. De modo geral os habitantes se conheciam. Já agora, entretanto, havia riqueza de odiosidades entre os adversários políticos.

Cheguei a casa, matei as saudades imensas dos velhos - e tive a notícia alvissareira: o povo votava no dia do aniversário natalício de Eurípedes de Aguiar. Quis logo visitá-lo para a satisfação de desejo longamente alimentado. E assim pratiquei.

Nesse dia 19 de janeiro de 1947, data dos 67 anos do vigoroso timoneiro da campanha eleitoral, os piauienses lhe conferiram o melhor presente: a vitória de Rocha Furtado para o governo do Estado.

Meu pai e Eurípedes muito se estimavam. As vicissitudes de vida e os deveres da solidariedade estabeleceram entre ambos sólida amizade, que os anos não arrefeceram, antes aprofundaram - e o fato fez que eu tivesse no incontestável comandante um amigo certo, a quem ofereci admiração e respeito. Com a subida de Rocha Furtado ao governo, as figuras mais ativas de "O Piauí", Eurípedes, Martins Vieira e Ofélio, receberam cargos oficiais, como auxiliares da administração que se inaugurava. Afastaram-se do jornal, cuja direção Eurípedes me entregou, e pude desempenhá-la com leal observância dos princípios partidários. Transmiti-a, de ordem, ao poeta José Severiano da Costa Andrade.

Em maio de 1947 tive nomeação como delegado de polícia da capital. Por esta forma passei a trabalhar com Eurípedes, chefe de Polícia - e nas funções me conservei até dezembro do mesmo ano.

Privei com Eurípedes no jornal e nos encargos de xerifado. Dele recebi conselhos e proveitosas lições de experiência. Nunca o vi covarde, nem prevalecido de prestígio para perseguir ou humilhar. Uma feita me ensinou que a gente não deve gastar tempo, tinta e papel para se defender de ataque inimigo pelo jornal. Antes se ataca com mais violência o diatribista.


A. Tito Filho, 17/10/1989, Jornal O Dia

RUAS DE TERESINA

Rua Álvaro Mendes. Nomes anteriores: rua Grande, Doutor Portela e novamente rua Grande. Observação: da praça da Liberdade em diante, a partir de 1939, chamou-se Monsenhor Gil. Tal divisão foi anulada em 1976.

Rua Senador Teodoro Pacheco. Nomes anteriores: rua Bela, Marquês de Paranaguá, Bela.

Rua Lisandro Nogueira. Nomes anteriores: rua da Glória, Desembargador Gil, Benjamin Constant, Glória.

Rua Eliseu Martins. Nomes anteriores: rua Augusta, dos Negros, Anfrísio Fialho. Observação: esta rua foi dividida da seguinte forma: da praça Rio Branco à praça João Luís Ferreira, rua Anfrísio Lobão; da praça Demóstenes Avelino à praça Floriano Peixoto, rua General Osório. Lei de 1976 considerou-a rua Eliseu Martins em toda a extensão, desaparecendo as divisões mencionadas.

Rua Firmino Pires. Nomes anteriores: rua do Imperador e Cesário Alvim.

Avenida Antonino Freire. Nomes anteriores: rua São Benedito, Padre, avenida Frei Serafim, avenida Odilon Araújo.

Rua São Pedro. Nome anterior: Padre Fonseca.

Rua Olavo Bilac. Nome anterior: Santo Antônio.

Rua Coelho Rodrigues. Nomes anteriores: rua da Palma, rua do Fio. Observação - Em 1939, esta rua foi assim dividida: da praça João Luís Ferreira à praça Demóstenes Avelino, rua Machado de Assis; da praça Demóstenes Avelino à avenida Miguel Rosa, rua Oswaldo Cruz. Em 1976, a divisão foi revogada e a rua, em toda a linha, se chama Coelho rodrigues.

Rua Félix Pacheco. Nomes anteriores: São João e Siqueira Campos.

Rua Paissandu. Nome anterior: rua do Pequizeiro. Observação - Esta rua foi assim dividida, em 1939: da praça Pedro II até a praça Frei Serafim (hoje São Benedito), rua Duque de Caxias; desta última praça em diante, rua Monsenhor Lopes. A legislação de 1976 revogou a divisão, estabelecendo o único nome de Paissandu.

Rua Areolino de Abreu. Nome anterior: rua do Amparo.

Rua Simplício Mendes. Nome anterior: Quintino Bocaiúva. Observação - Em 1939, a rua foi assim dividida: da praça Landri Sales à avenida Miguel Rosa, rua Almirante Tamandaré; da praça Rio Branco à praça Landri Sales, rua Coelho Neto. Ato administrativo de 1976 revogou a divisão.


A. Tito Filho, 10/11/1989, Jornal O Dia

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

SEMANA SANTA

As festas populares e religiosas décadas atrás constituíam acontecimentos importantes na vida das comunidades nacionais. Os reis, o carnaval, a Semana Santa, o são João, o Natal tinham características próprias. A Semana Santa obedecia a rígidos princípios e um deles estava na abstinência de carne, aliás adotada nas quartas e sextas-feiras de toda a quaresma. Em Teresina, nos dias consagrados ao sacrifício de Jesus, a cidade se tomava de quietude e melancolia. Andava-se pelas ruas de roupa preta. A indumentária parece que pertence ao ritual católico. Caminhava-se devagar, falava-se baixinho, ninguém ria. Não se varria a casa, não se tomava banho. Procissões tristes, em que de hora em hora a matraca arrepiava a pele da gente. Procissões de anjinhos com asas que as vestidoras de anjos aprontavam. Imponente a do Senhor Morto, de banda de música ao tocar marcha fúnebre, acompanhando o andor. As procissões eram lúgubres.

As comidas se chamavam de preceito. Bacalhau, peixe, as tortas de sardinha, o cuscuz e a canjica de milho, o arroz-doce, abóbora, maxixe.

As festas populares e as religiosas se modificaram com a influência do poder industrial, que transformou a vida das comunidades do planeta terra. A educação dirigida para a diversão permanente do homem desespiritualizado, esquecido dos seus velhos valores morais e da sua condição humana - essa educação transformou todas as festas populares e religiosas. E não apenas as transformou mas faz que elas, pouco a pouco, se transformem em fabricação de dinheiro e futilidade.


A. Tito Filho, 28/03/1989, Jornal O Dia

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

QUASE NO FIM

O carnaval valia um afesta de graça, de bom humor e de contagiante alegria. Em tempos mais remotos, quando a folia se iniciava, depois que se proibiu a estúpida brincadeira do entrudo, ainda no século passado, o carnaval se fazia nos bailes dos clubes sociais e nas ruas - e nessa época mais antiga a máscara era a principal fantasia no reino de Momo. E a evolução para melhor se processou ano por ano, apareceram os ranchos, os cordões, os blocos, cheios de entusiasmo, que percorriam as ruas e prestigiavam as danças nos salões. Uma beleza, momentos de efusivas manifestações de pândega. Que dizer das saudosas batalhas de confete e lança-perfume nas praças animadas de inesquecíveis sambas e marchas executadas pelas bandas militares? O automóvel e o caminhão fizeram o corso gostoso. Percorriam-se ruas previamente escolhidas e veículos, marcha vagarosa, lotados de moças e rapazes, se enfeitavam e de um para outro jogava-se colorida serpentina. Muita cantiga bonita e movimento de corpo. Pelas vias públicas desfilavam homens fantasiados. Muito bom humor em tudo. Raras brigas se verificavam. Nos grandes centros registrava-se as vezes um crime de morte. Governos federais, estudais e municipais nada gastavam nessa ruidosa brincadeira nacional.

A festa de Momo transformou-se numa desasseada manifestação de complexos, explosão de baixos sentimentos recalcados. O que parece alegria, representa fúria, violência. Uma válvula de escape para protestos de angústia e para que os doentes espirituais fujam da sua realidade.

O carnaval tornou-se monótono. vive dos órgãos oficiais que ajudam a indústria da festa. Os clubes conseguem não pagar impostos. Ao cabo de contas, as escolas de samba. Todos os anos a mesma cousa. Remelexo, bumbuns de fora, o boi da cara preta também, seios amostrados. Homossexuais, hetero, giletes e outros tipos da selva pornográfica desfilam à custa de verbas do erário, para que os que moram em casebres de taipa, em favelas, ou debaixo das pontes, em quartos de papelão, felizes, pensem que participaram da festa do povo.

Está quase no fim o carnaval.


A. Tito Filho, 08/03/1989, Jornal O Dia

CARNAVALESCAÇÃO

Sei que estamos em março, a poucos passos da semana santa, que se comemora quarenta dias depois das maluquices do rei Momo. Mas nenhum pecado pratico neste comentário sobre as folias do principio de fevereiro. Antigamente se fazia carnaval na terça-feira. E a coisa se tornou gostosa e reclamou a segunda, o domingo. Depois se adotou o sábado, a sexta-feira, numa encompridação constante. Contem-se os dias: de sexta-feira anuncia-se que o expediente em todos os setores tem início ao meio-dia, embora só operário de salário-mínimo cumpra o estabelecido. A farra termina de manhã, no dia das cinzas e ninguém nasceu e cresceu feito de ferro. Há necessidade de que o alcóol saia das entranhas. Conte-se a quarta. Restam a quinta e a sexta. A antevisão do sábado e do domingo faz que se dê feriado desde o início da festa até o domingo seguinte seguido a ela. reino da preguiça e da malandragem.

Dez dias, mais ou menos, a nação se torna paralisada em muitos dos seus setores produtivos, e sobremodo no serviço público. Péssimo exemplo de chefões, chefetes, chefinhos. Anotem-se os gastos fabulosos com hospitais, remédios, segurança policial. As despesas sem conta do governo nos dinheiros dados às escolas de samba. Uma festa de alegria e bom humor transformou-se num espetáculo de luxúria e de pornografia, de luxo nos desfiles e fantasias dos grandes centros populacionais.

Na terça-feira fui ver a carnavalescação da avenida Frei Serafim. Mau gosto generalizado. Frescura muita. No meu tempo de rapaz, só havia de baitola o animado Bernardo Alfaiate, que sempre saía de baiana cheia de enfeites, de vistosos adornos na cabeça, mas sem peitos. Aplaudidíssimo. Agora o carnaval se faz com veados e bumbuns. Cada maricas de seios e salamaleques que dá gosto. As fêmeas de traseiros à mostra e algumas até de boi de cara preta de ninguém botar defeito.

Não vi exibição de beleza feminina, mas simples e veemente pornografia.


A. Tito Filho, 07/03/1989, Jornal O Dia

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O VELHO LICEU - I

Ingressei no Liceu Piauiense como estudante do curso ginasial, no tempo em que este se integrava de cinco séries. O educandário funcionava na praça Demóstenes Avelino, lugar que depois seria ocupado pela Faculdade de Direito, hoje, pela Biblioteca Cronwell Carvalho. De quantas recordações se povoa ainda agora o meu espírito - as traquinagens, a severidade das provas parciais, os bons mestres Agripino Oliveira, Padre Moisés Pereira dos Santos, Álvaro Ferreira, Francisco César de Araújo - este ainda no rol dos vivos - e tantos outros, bem composto, sabedores do que ensinavam, respeitados, queridos.

Em 1936, o governo transferiu a sede do educandário para edifício próprio, projetado pela inteligência objetiva de Luís Mendes Ribeiro Gonçalves. Era 3 de maio, primeiro aniversário da administração governamental de Leônidas Melo. Dia de muita festa cívica. Houve parada, de que participei garboso, peito saliente, como queria o sargento comandante da tropa estudantil do desfile. Farda engomadinha, botinas engraxadas. Naquele tempo, usava-se uniforme cáqui. O paletó tinha duas lapelas, em que se bordavam duas penas brancas, em que se bordavam duas penas brancas, uma de cada lado. Ao final das mangas compridas, as listras horizontais.

Nunca me saíram da cabeça as peraltices notáveis da estudantada. Os jornaizinhos de críticas e piadas. Os assaltos às bancas de vendedores de frutas no mercadão da praça Deodoro. As suspensões rigorosas pelos chamados atos de indisciplina. O repúdio aos delatores, bem assim aos furadores de greves. A intransigente solidariedade entre os colegas. Os processos de pesca nos exames escritos.


A. Tito Filho, 06/08/1989, Jornal O Dia